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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Instituto das pessoas que estão à espera

NUNO BASTOS



Sirvo-me da posição designada por sentada enquanto usufruo da espera que me foi concedida nas instalações do Instituto das Pessoas que estão à Espera onde, na sala de espera do dito estabelecimento se atulham outras pessoas em actividade de espera. Algumas observam o ticket numerado que colheram no mecanismo distribuidor de tickets numerados que é visível logo após a entrada no instituto. Para se estar à espera é necessário retirar um deles, caso contrário não há qualquer possibilidade de estar em espera. Portanto, qualquer ser vivo de aspecto humano que se sinta na necessidade de atravessar um intervalo temporal preenchido por espera, vê-se na obrigação de extrair um ticket assim que se coloca no interior deste edifício. Cada um desses tickets traz impresso um número serial que indica que posição ocupa na fila de espera o cidadão que levou a efeito o acto de o retirar do mecanismo onde ele pendia na ânsia de ser levado por alguém que por ali passasse. Tendo entre mãos ou entre dedos, conforme o caso, o pedaço de papel numerado retirado do objecto que distribui a numeração serial e ordenada, o cliente que anseia por esperar deverá, de seguida, dirigir-se para a sala de espera que foi instalada ao abrigo de um dos vastos compartimentos existentes no interior do imenso edifício que é o Instituto das Pessoas que estão à Espera. Uma vez executada a rápida deslocação entre o mecanismo distribuidor de tickets e a sala de espera, quem aí chega torna-se de atenções viradas para a busca de um lugar vago onde se sentar com o intuito de se tornar a si próprio alvo de uma mais confortável posição para suportar a espera que o espera enquanto espera que o mostrador colocado no alto de uma das paredes exiba o número correspondente ao do seu ticket.

 

A sala de espera é possuidora de dimensões gigantescas, mede uns cem metros de comprimento por outros tantos de largura e o seu tecto está afastado do chão umas cinquenta unidades métricas. Dezenas e dezenas de filas de cadeiras percorrem a sala, estando cada uma das cadeiras colocadas lado a lado com a cadeira que se encontra a seu lado e todos os assentos estão virados para a parede frontal, oposta àquela onde foi colocada a porta de entrada para esta divisão, de modo a que quem lá se senta fique de olhos direccionados para o gigantesco mostrador que exibe o número do ticket que acabou de ser chamado. Sempre que este número se altera para o seu seguinte, respeitando a ordem crescente, faz-se ouvir por toda a sala um exacerbado sinal sonoro alertando o dono do ticket com o número correspondente que chegou a sua vez de estar à espera. A sua vez de estar à espera porque a sala de espera é apenas o local onde se aguarda que chegue a vez de se estar à espera.

 

Quando a pessoa é chamada, transporta o precioso ticket que confirma que é a sua vez de ser atendido e desloca-se para fora da sala de espera através de uma porta edificada numa parede lateral que a faz encaminhar por um longuíssimo corredor para a sala de atendimento. Aí, a pessoa a quem o destino sorriu com a faculdade de se poder vir a encontrar em espera, ruma para junto do funcionário que ocupa a mesa que chamou o número em questão e senta-se na cadeira propositadamente colocada à mesa de cada funcionário, primeiro porque os variados funcionários dessa divisão estão também de posições sentadas e, segundo, porque se torna mais confortável para o cliente, visto que é exigido que este seja questionado com um pequeno inquérito consistindo em perguntar o nome, a morada, a profissão, a razão que o faz recorrer ao Instituto das Pessoas que estão à Espera, por que razão deseja esperar e por quanto tempo deseja esperar.

 

O passo seguinte da demanda pela espera é dado quando o funcionário da instituição prepara um documento com os dados recolhidos do cliente e onde é prostrada uma carimbada que oficializa, juntamente com a assinatura do dito funcionário, o pedido de espera por parte do cliente. Este, após entregar a devida quantia requerida pelo serviço, recebe o referido documento, desune-se da cadeira em que repousava o corpo e encaminha-se para uma porta que o leva a entrar e a percorrer um amplo, luminoso e extraordinariamente longo corredor, tão extraordinário que o seu fim se perde na distância que normalmente entendemos por longe.

 

Após uma árdua e extenuante caminhada abrindo caminho através do desmedido corredor, o cliente, agora com o título de esperante, vê-se perante uma porta por onde penetra de modo a permitir que se mostre fisicamente diante de um outro dos milhares de funcionários que são competência do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Sentado a uma secretária de dimensões soberbas e completa de variadas coisas e objectos, onde é francamente visível um avantajado monte de papeis que se desenvolve segundo o eixo do Y, este outro funcionário estende uma mão ao cliente pedindo-lhe a documentação que obteve na sala de atendimento. Após consulta minuciosa da mesma, entrega ao requerente uma cópia do documento e uma pequena chapa metálica com um número gravado na sua superfície. Esse é o número do compartimento cedido ao indivíduo que quer esperar.

 

Por uma outra porta é feita a transposição para uma enormíssima sala que alberga os compartimentos de espera. Esta sala possui dimensões tão extensas que ocupa uma grande parte do já de si enorme edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Ao entrar nesta sala, um dos funcionários aí presentes pede que lhe seja entregue a cópia do documento e a chapa metálica. São estes os funcionários encarregados de zelar pela boa espera de cada um dos clientes. São eles que os encaminham até ao compartimento que lhe foi cedido.

 

A sala que alberga os compartimentos de espera é idealizada segundo centenas e centenas de corredores que serpenteiam pelo interior nos vários andares de altura do Instituto. Cada um desses corredores tem as suas paredes laterais cobertas por portas que encerram os compartimentos de espera, o local onde o esperante é encerrado enquanto fica à espera. Cada compartimento pouco maior é do que uma pessoa e possui uma cama de solteiro e uma casa de banho, nada mais. As refeições diárias são trazidas e entregues em mão ao esperante por um funcionário.

 

O esperante é guiado para o compartimento que lhe é emprestado e após o decorrer da totalidade de tempo que o cliente deseja estar em espera, um dos funcionários é encarregue de o guiar para fora do compartimento de espera, para fora da sala dos compartimentos de espera e para fora do edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera.


 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Texto com um título energúmeno

NUNO BASTOS



Ao iniciar-se na leitura desta bodega fica o magnífico leitor habilitado a conseguir chegar ao término da mesma bodega. Portanto, excelso leitor, se por algum motivo de força maior tiver desejos de ignorar a existência desta coisa que por aqui vai, pode fazê-lo e ir dedicar-se a qualquer outra coisa. Se quiser continuar a ler esta porcaria, então siga lendo.

Creio com toda a certeza que o que escrevo é absolutamente desinteressante e até eu próprio fico aborrecido com todo este palavreado aparvalhado. Comecei a escrever esta palermice depois de ter rebolado o meu corpo nu ao longo do chão da minha casa, mas só rebolei até me apetecer. Antes disso eu estava vestido e fui discutir Nietzsche com o semáforo que fica ali ao fundo. Gosto de discutir Nietzsche com ele e às vezes o merceeiro da esquina vem debater connosco. O semáforo é um entendido em Nietzsche mas o merceeiro é mais Jung.

Ainda antes de discutir Nietzsche com o semáforo, estive a pregar um prego numa parede porque, ao longo do dia, a sombra do prego vai-se movendo pela parede. E, por certo, o meu magnânimo leitor sabe que, para pregar um prego numa parede, é necessário um prego e um martelo, além da parede e de alguém que martele o prego.

Antes do prego já não me lembro o que fiz, mas antes disso que não me lembro olhei para um telefone. Ele não fez barulho mas eu olhei à mesma. Um telefone costuma fazer barulho ou tocar uma cantiga. Antes de olhar para o telefone também já não me lembro o que fiz e antes também não. E acho que antes também não.

Costumo discutir filosofia com outros semáforos mas aquele é o mais sabido. Há um semáforo que só vê Platão à frente e há um outro semáforo que só quer saber do Sartre. Às vezes vou com o merceeiro da esquina ter com um desses outros mas ele só quer saber do Jung. O merceeiro vende batatas, couves e hortaliças no geral. Também lá tem bolachas, massas e cereais. A mercearia dele é pequena e tem demasiadas coisas à venda e quase não há espaço para os clientes se mexerem lá dentro e a caixa registadora é grande demais para uma mercearia tão pequena como aquela. O merceeiro é casado com a merceeira, uma mulher antipática e que nunca é simpática. O merceeiro e a merceeira não têm filhos porque não têm filhos. São só eles os dois que trabalham na mercearia da esquina. Em frente da mercearia da esquina há uma loja que vende roupa e que tem bonecos grandes na montra para mostrar a roupa que vende e lá ao lado há uma loja que tem aqueles bonecos que mexem e que cantam quando alguém lhes mete uma moeda. A mulher que trabalha na loja de roupa também é antipática. Eu só gosto do merceeiro e da filha da mulher da loja de roupa. O merceeiro é simpático mas a filha nem por isso. A filha da mulher da loja de roupa namora com um rapazola com barba e que diz que é muito macho porque defende a namorada. Uma ou duas vezes chamei uns quantos nomes a esse rapazola e ele ficou muito ofendido e depois correu atrás de mim e eu fiz queixa ao merceeiro. Depois veio a mulher da loja de roupa e perguntou-me o que queria eu da filha dela e eu disse-lhe que não é com a filha dela mas sim com o rapazola. Quando lhe disse isto, a mulher afastou-se e eu procurei o moçoilo para lhe chamar mais uns quantos nomes. Depois acho que fui falar com o merceeiro, já não me lembro bem. E antes também já não me lembro o que estava a fazer e só me lembro de começar a escrever isto. Sei que depois abri a porta e fechei-a e depois fui ver se estava a chover. Antes disso eu estava sentado no sofá e antes de estar sentado no sofá, eu estava em pé. Estive com a filha da mulher da loja de roupa e falei com ela. Perguntei-lhe se ela acha que o rapazola é um brutamontes e ela ficou ofendida. Depois foi fazer queixa ao rapazola que correu atrás de mim e eu corri à frente dele. Ele tem barba e muitos músculos. Depois eu corri à frente dele e entrei para a mercearia e fingi que era cliente mas a mulher do merceeiro expulsou-me porque é antipática e continuei a correr à frente do rapazola. E antes disso já não me lembro o que estava a fazer.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Du Narish e de outras figuras

NUNO BASTOS





Du Narish, conde de Lá, visita frequente do duque Bemcolirado, anda enamorado por ambas as filhas do duque supra citado. As formosas moças, de nomes Nárriná e Linguá, mostram frontes desejadas por locais e lacaios e gozam de privilégios de ordem vária corpo fora. E tantos são, que pretendentes não lhes faltam, desde galantes cavaleiros a galope, até quixotes que montam mula emprestada.
Du Narish, enquadrado nos aspirantes, pretende assegurar-se de ambas as donzelas, mas o duque, progenitor fero de fogo, faísca ainda pelas ventas quando observa o conde em seus domínios. Foi largada a fúria por ter Du Narish maculado com odor característico o quarto de Nárriná que se via pronta para declinar esse dia. Deveu-se o odor ao aroma nutritivo que espalha o conde sobre si e que escorre corpo abaixo enquanto cobre pilosidades pele afora. Do aroma é segredo que nem vê-lo ou não fosse o conde ciente da exclusividade promissora.
Pois que estava em dias idos o odor em quarto alheio quando o duque, em passagem austera pelos arrabaldes, fungou o cheiro que se escapava, suprimindo a porta que encerrada se fazia. Reagiu veloz à primeira deliberação lembrada que era a de haver um estranho recostado no aposento de sua prole e irrompeu quarto adentro, intentando segurar às forças o malandro que se intrometera com Nárriná. Mas qual fabuloso espanto ao descobrir, recostada nas cabeceiras da cama, a sua mui amada filha, segurando entre mãos um livro que se dizia ser bom e de qualidade. Perguntou-lhe o duque da proveniência de tal odor e respondeu-lhe a moça que lhe desconhecia o paradeiro mas que poderia dar-se o caso de haver surgido rumando pela janela que permanecera dia fora tão escancarada quanto possível. E assim, de semblante satisfeito, deu as boas noites à protegida e extraiu-se do aposento, deixando atrás de si a porta tão cerrada quanto estava.
Novamente o odor, dessa vez ao fazer evoluir o passo austero diante da porta do quarto de Linguá, parando o duque Bemcolirado de ouvido colado à escura madeira que faz a divisória. Buscou voz masculina que salpicasse dos arredores da sua filha, mas nada ouviu e surgiu imponente no interior do quarto, assustando Linguá de tão rápido que aparecera.
Linguá, que se trocava para a noite, quedou-se de susto aberto e cobriu-se veloz com a roupa tirada. Ainda de ouvido atento e de olhar esgazeado, quis o duque saber da origem do cheiro sugado por suas fossas. A moça nada sabia, sugerindo o exterior como fonte da nascente e que algum vento de passagem o havia trazido para o interior. Sossegou-se o duque mas manteve-se de vistas acesas, perscrutando o cenário com olhar caçador. E dando as boas noites à moçoila aturdida, soltou-se dos interiores do aposento e continuou viagem em passo austero.
E tinham três passados quando ao quarto passo declinou a marcha por ouvir do aposento de Nárriná um riso agudo seguido de som de macho que montava a voz de sua filha. Dessa vez, furibundo quanto baste, entrou o duque no aposento, pegando com as vistas azuis, inconcebíveis cenas desenroladas no colchão de Nárriná. Da origem do odor tomou nota também, pois que era advindo do conde desnudado que se quedava tão nu quanto a moça.
Cobrindo-se Nárriná e fugindo Du Narish, largou-se o duque atrás do conde, citando-lhe impropérios e demais palavreado realçado. Du Narish, gritando não ter culpa fez, assim, pior por acusar Nárriná, tornando-a vadia de ocasião. Bemcolirado, de ventas fumegantes, lançou-se num salto tocando ao de leve as arrecuas do conde que se encontravam esbanjantes da substância odorífera que havia escorrido desde matina do topo do crânio cabeludo. Parando depois o duque, avistando a sua mão gordurenta, içou-a rumo ao nariz para sorver bem sorvido o aroma largado. E confirmando a resposta da origem do cheiro, já Du Narish se havia surripiado porta fora, ficando o duque olhando fero para Nárriná. A moça, que cobria as vergonhas, desviava os olhos do pai, baixando-os ao colchão.
Saiu, então, o duque correndo do quarto e entrando no vizinho, pensando encontrar Du Narish com Linguá. Para espanto fantástico, nada havia às vistas de ver, mostrando-se o aposento tão vazio quanto um copo vazado. Veio-lhe às ideias a perseguição do rasto odorífero para surgir de caras com Du Narish e, possivelmente com Linguá. Mas de parte foi posta essa criação por haver odor espalhado por área indefinida e abrangente. E, assim, largou-se sentado no aposento, aguardando a chegada de Linguá na demanda de justificação a propósito do acto de fuga.
Passou a noite e já o galo cantava alto quando Linguá retornou, encontrando as fuças ventosas do senhor seu pai que fumegavam a bom vento. Suspendeu-se a filha de movimentos, pois que trazia pressas nas pernas, gelando congelada diante do duque. Em silêncio se fez a pergunta da localização exacta do tratante a quem chamam Du Narish e disse-lhe a moça que havia regressado às suas terras.
Içou-se o duque do cadeirão e mandou emissário aos domínios do conde que na rápida cavalgadura entregou ordem de duelo a Du Narish. Recebendo e concordando com o anunciado, enviou o conde de volta o emissário aos domínios de Bemcolirado. E tudo se arranjou para o dia do duelo, esperando o duque no lugar por um conde que não apareceu por se haver enrolado, em simultâneo, com Nárriná e Linguá, largando-as ainda antes do retorno do pai. Desse dia em diante, esquiva-se Du Narish das vistas observacionais do duque que se desalma pela caçada do malandro.


sábado, 21 de maio de 2016

O uso abusivo de palavras em inglês

NUNO BASTOS


O uso de palavras em inglês torna-se num hábito cada vez mais presente na nossa sociedade. E, pessoalmente, creio que essa situação está a passar para um nível abusador, ainda que as razões para tal possam surgir por via de diversas razões. Tentarei, pois, neste escrito debruçar-me um pouco sobre este assunto, não tanto para lhe encontrar uma solução mas mais como uma reflexão (mesmo que pouco profunda).
Começo, assim, por afirmar que se compreende que quando, na nossa língua materna, não existe uma palavra para designar algo, então que se utilize uma noutra língua e se lhe dê uso, integrando-a no léxico utilizado. Este é um processo perfeitamente natural de integração de uma nova palavra numa língua. Não é um processo forçado. Ao longo do tempo, dos séculos, dos milénios, essa palavra “emprestada” tornar-se-á, provavelmente, diferente da original obtida por ter sido modelada pela língua e pela cultura que a acolheu, sofrendo como que uma adaptação à cultura que a recebeu.

O que me parece de difícil compreensão é a situação em que existe uma palavra em português para designar algo e, mesmo assim, utiliza-se uma palavra em inglês para a substituir (e sobrepor-se) à sua semelhante em português. Lembro-me, por exemplo, de “personal trainer” (é o mesmo que dizer “treinador pessoal”); lembro-me também de “running” (que tal utilizar “corrida” em vez de “running”?); lembro-me de “sales manager” (utilize-se antes “gestor de vendas”); lembro-me de “coffee break” (diz-se em português “pausa para café”). E por aí adiante porque a lista é longa.

E mais ainda: nenhumas das palavras que utilizei nos vários exemplos acima caíram em desuso no português; todas essas palavras continuam a ser utilizadas no nosso quotidiano: treinador, pessoal, corrida, gestor, vendas, pausa, café (incluindo, claro, as preposições “de” e “para”).

Custa-me que uma língua tão rica como o português esteja a ser atropelada desta maneira e esteja a ser “escravizada” em prol de uma universalidade que se utiliza da língua inglesa. Nada tenho contra a língua de Sua Majestade e nada tenho contra a importância que o inglês adquire como língua universal nos tempos que correm. É sabido que o nosso mundo está cada vez mais pequeno e mais próximo e alguma tem de ser a língua comum e que sirva de forma de comunicação entre dois povos de diferentes falas (quer seja o inglês a língua de um desses povos, quer não seja e sirva apenas como língua de união); actualmente é o inglês e daqui a alguns séculos será outra língua (isto é apenas a História a avançar, servindo-se das circunstâncias que a constroem).

Bem sei que uma língua não é estática, que evolui e que está em constante mutação ao longo do tempo; o português que se falava há quinhentos anos não era igual ao de hoje. E esta evolução dá-se (ou dever-se- ia dar) por motivos naturais e não para agradar a determinados assuntos ou para parecer mais universal. E sim, já sabemos que o inglês está quase permanentemente presente no nosso dia e que se nos quisermos fazer entender num lugar algures do mundo iremos, provavelmente, expressarmo-nos em inglês (desde que tenhamos, pelo menos, algumas noções dessa língua). Mas nós estamos em Portugal e a língua oficial é o português (e também o mirandês).

Poderão alguns dizer que por estarmos num posicionamento global tendemos a usar palavras ou expressões em inglês para que noutro país se perceba aquilo que dizemos. Muito bem, certo. E compreende-se que um português diga a um vietnamita ou a um sueco “eu sou sales manager” (já traduzindo do inglês o “eu sou”). Mas parece-me abusivo que um português diga a outro português que “sou um sales manager” ou “vou comprar artigos de running” (falando ambos em português). Porquê optar por dizer a mesma coisa mas noutra língua?

Dirão outros que usamos palavras como “mail” ou “net” (de “internet”) e que se traduzem por “correio” e “rede” (que existem e se usam no nosso português quotidiano). E sobre isto podemos dizer o seguinte:

Usamos “mail” para o distinguir do correio tradicional trazido até nossa casa por um carteiro. Dizemos “vou enviar um mail” e dizemos “vou escrever uma carta” (e enviá-la pelo correio). Ou seja, sabemos automaticamente que um “mail” chegará ou será enviado virtualmente e que não é um objecto físico como o é uma carta guardada num envelope com selo. E, da mesma maneira, temos a palavra “net” que distingue um sistema virtual de comunicação do objecto físico “rede”. É claro que (para aqueles, como eu, que não estão permanentemente ligados à internet e/ou que não lhe têm acesso através do telemóvel) podemos sempre dizer “vou à rede” em vez de “vou à net” mas tornou-se usual de forma natural o uso de “mail” e de “net”. São apropriações que se juntaram ao português e que vieram preencher uma inexistência: a não-presença de palavras destinadas a habitar um espaço que é a existência de um mundo virtual e de tudo o que lhe é agregado (a internet); e assim foram integradas no léxico. Temos, claro, o “correio electrónico” e o “endereço electrónico” (que há quem os denomine na versão em língua portuguesa) mas o facto é que a internet é uma espécie de país global (ainda que virtual) cuja língua-base é o inglês (ou tende a ser o inglês). E as palavras que constroem esse país global e virtual não são “personal trainer”, “coffee break” ou “running”.

Termino dizendo que pode, talvez, parecer que estou a querer cristalizar a língua portuguesa tornando-a pura ao máximo. Mas não, nada disso. Apenas pretendo que se usem palavras em português quando elas existem. Por outras palavras use-se “treinador pessoal” e não “personal trainer”, use-se “pausa para café” e não “coffee break”, use-se “corrida” e não “running” e por aí fora. Pretendo que as palavras entrem naturalmente numa língua e não a partir de uma espécie de imposição exterior.

Nenhuma língua e nenhum dialecto são eternos. A tendência é que existam enquanto houver falantes. E, como tal, o português não existirá para sempre. Eventualmente cairá em desuso e desaparecerá (como aconteceu a tantas outras) ou manter-se- á vivo num modo semelhante ao latim, por exemplo. A língua portuguesa fala-se em vários lugares do mundo (ainda que tenha variações locais) e é, em quantidade de utilizadores, das mais faladas actualmente (apesar da maior parte dos falantes não estarem na Europa).

Mas não me parece correcto haver quem opte por, aos poucos, ir esmagando a língua portuguesa, preferindo sobrepor-lhe sinónimos ditos noutra língua. E seja qual for a razão que o leve a fazer isso (o hábito, as necessidades de mercado, as modas, a ignorância, etc) é sempre importante decidir se há, de facto, necessidade em dizer “personal trainer” em vez de “treinador pessoal” (para citar apenas um dos muitos exemplos mas que é substituível por outro à escolha; muitos mais haverá mas, para simplificação, mantive-me repetindo os três ou quatro que utilizei ao longo deste texto).



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A mostrar O uso abusivo de palavras em inglês.doc.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Em três parágrafos

NUNO BASTOS


Nuno Bastos formou-se em artes plásticas e desenvolve o seu trabalho, sobretudo, na performance e na escrita. Nas suas performances diz textos da sua autoria.

 

 

Encaro como um aborrecimento a minha tentativa de escrever o texto que agora tendes perante vós e não fosse a minha caneta regular o fluxo contínuo de exteriorização e nunca teria dado início a este disparate. Teria sido mais proveitoso lançar o meu corpo ribanceira abaixo, quebrando um osso aqui e outro acolá ou provocando hemorragias internas devido a embates violentos contra o solo à medida que me fosse despedaçando. Com um pouco de jeito romperia um tendão ou enfiaria uma farpa aguçada crânio adentro ou até, talvez, vazasse um olho. Mas parece-me que a melhor solução será a construção de um segundo parágrafo para que este primeiro se feche.

 

Ora cá está ele, o tal de segundo parágrafo que dificilmente irá adiantar alguma coisa ao seu precedente. Sinto-me até um pouco frustrado por me supor legítimo ao ponto de ter lhe ter dado início, mas o certo é que este segundo só se justifica porque existe um anterior que regulou a vitalidade deste. Apesar disso, continua a parecer-me pouco provável que eu consiga tomar-lhe a rédea e compor nele uma bela história, daquelas que ficam nas mentes das gerações e que passam de pais para filhos e destes para os netos. Será até descabido ver um neto e o seu clã sentados em redor de uma fogueira, ouvindo o ancião relatar o passado neste texto. E creio também que a melhor solução será despachar este escrito do modo mais breve possível para que não fira os olhos de quem o lê. É possível que lhe tenha de adicionar mais umas tantas palavras e frases de modo a que se pareça com um texto aproximadamente legível ou algo que se perceba como tal e que, mesmo que as palavras à vista funcionem como tampão, lhe seja possível penetrar entre as letras e aguçar o apetite com o outro lado. Mas isso aconteceria se, de facto, cada letra deste texto possuísse esse tal de outro lado pois, caso não o tenha, poderá não haver qualquer necessidade de investir no seu interior. Resta-me por agora dizer que vou a caminho do terceiro parágrafo que começa imediatamente a seguir ao término deste, anexando a vil esperança que nele surja algo de inefável e espantoso.

 

Agora que já avanço pelo terceiro parágrafo, espero que este texto se quede por algum término encontrado. E é, sem dúvida, conveniente que venha o ancião e me oferte um par de chapadas em cada face para que eu pare imediatamente a escrita deste devaneio execrável e me estenda solo abaixo, enterrando qualquer sopro que de mim sobre.