segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Atenção senhores passageiros!"- por Gonçalo Moleiro

GONÇALO MOLEIRO


"Atenção senhores passageiros!”

Entrei no comboio. A porta fechou-se pouco depois, acompanhada de um estrondo. Descansei alguns segundos da corrida que me levou do metro ao comboio em tempo record e sentei-me apenas quando este já estava em andamento. A janela apresentou-me, mais uma vez, a cidade como um organismo vivo, revelando segredos que até então desconhecia.

Parece-me curioso constatar que é possível encontrar encanto na paisagem caótica que se agarra à linha de comboio que une Sintra e Rossio e que, como possível agravante, vejo quase diariamente há alguns anos. A velocidade a que o corpo é transportado permite apenas um olhar breve sobre aquilo que desperta a atenção de cada um. O resto cabe à imaginação, veículo de velocidade distinta. Viajo à volta dos pormenores que registo rapidamente no caderno e construo a minha própria cidade.

Um choque inesperado forçou a caneta deslizar no papel de modo aleatório. O braço do senhor do lado escorregou e, roubando apoio à cabeça, fê-lo acordar com um movimento inexpectável de um sono que me parecia profundo. Arrumei o caderno, terminando a viagem pelo imaginário. A de comboio, pelo contrário, ainda me reservava alguns minutos.



Gonçalo Moleiro

29.05.2013

Gonçalo Moleiro é arquitecto e oriundo de Sintra.A paixão pelo desenho justificou a sua primeira exposição de nome “Lugares de Sintra” que decorreu em Novembro de 2011 no café “Cantinho da Várzea". Em Setembro de 2012  foi premiado no Internacional Watercolor Contest da Sennelier e, em Outubro de 2012, participou numa exposição colectiva na Adega Viúva Gomes, em Almoçageme. Em Novembro de 2012 publica o seu trabalho no Facebook, onde se podem encontrar aguarelas, esquissos e algumas experiências gráficas.Gonçalo Moleiro convida-nos ao seu quotidiano através da sua página com os registos no seu diário gráfico, as suas fantasias gráficas,  excertos de banda desenhada, e não só, há também acesso aos locais onde costuma desenhar sob suporte fotográfico. Gonçalo não é só um aguarelista,  explora igualmente outras técnicas, conforme o trabalho que tenta criar e a situação com que se depara.
“Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.” de Fernando Pessoa em “O Livro do Desassossego”, foi a frase que escolheu para justificação da sua página

Sintra Encantada- um poema de Luis Mota Filipe

LUÍS MOTA FILIPE









Sintra,
De Saloia apelidada
Vila Velha tão conhecida
Mulher, Rainha e amada
Fidalga, nobre, bem querida;

Sintra,
Palaciana e mourisca
Guardando lendas e enredos
Tesouro de graça e mística
Por esconder tantos segredos;

Sintra,
De natureza abundante
Deslumbrando mil olhares
Desde a Serra verdejante
Até aos mais belos mares;

Sintra,
Sabe ser dos namorados
Que nas fontes juram amores
Deixando também apaixonados
Tantos Poetas e Pintores;

Sintra,
Calçadas gastas trilhamos
P`los seus becos e escadinhas
E nos musgos murmuramos
Quando não espreitam vizinhas;

Sintra,
Vou descobrindo no seu povo
Traços de força e humildade
Que imploram num sorriso novo
Um mundo de Paz e verdade;

Sintra,
Sempre fresca e natural
Misto de eterna emoção
Património Mundial
Que trago em meu coração, minha musa de eleição.

In:”geoGRAFIA do Silêncio”, Ed.Edium Editores,2010.

Luís António Silvestre da Mota Filipe, nasceu em Lisboa a 7 de Agosto de 1970. A infância e a adolescência viveu-as entre Anços (Montelavar), onde actualmente vive, e a Vila de Sintra.Tem visto seus trabalhos publicados na Imprensa Local e Regional, ao mesmo tempo que vem participando em Antologias / colectâneas e diversas tertúlias poéticas assim como concorrendo a vários concursos de Jogos Florais, obtendo alguns prémios e menções honrosas.Participou como Letrista de Fados, Marchas e canções, para peças de Teatro de Revista à Portuguesa, entre os anos de 1996 e 2006.
Em Março de 2009, a sua primeira obra poética «O Despertar dos Sentidos» numa edição de autor, prevendo lançar um novo livro de poesia no Outono de 2010.Em Dezembro de 2010, o livro de Poemas "geoGRAFIA do Silêncio", com prefácio de Susana Custódio, editado pela edium editores. Em 2012, o livro de poesia /prosa poética "Sentimento Maior ", com a chancela da Chiado Editora. É sócio  da Associação Portuguesa de Poetas - A.P.P

domingo, 2 de junho de 2013

Perguntas sem resposta em Sintra



FERNANDO MORAIS GOMES
 

Se o quotidiano de Sintra é marcado pela tensão entre a serra e suas faldas e os suburbanos depósitos de gente que como tumor cercam a vila ainda incólume, nesta muito ainda há a fazer, e para tanto, aqui se deixam algumas perguntas às quais, creio, muitos sintrenses gostariam de ver serem dadas respostas. A saber:

Porque é que não há uma revista cultural à semelhança da saudosa “Vária” que deixou de ser publicada sem se ter encontrado um substituto adequado?

Porque demora a aprovação do novo Plano de Groer, bem como do Plano da Praia das Maçãs?

Para quando uma homenagem no Parque da Pena a Carlos de Oliveira Carvalho, seu administrador florestal durante mais de 30 anos?

Para quando a atribuição do nome de M.S.Lourenço, escritor e filósofo nascido em Sintra e falecido em 2009 a uma rua na freguesia de S. Martinho?

Para quando a recuperação das casas arruinadas no Rio do Porto?

Para quando a abertura do Hospital da Misericórdia na Vila?

Para quando a abertura de um parque de campismo e uma pousada de juventude, que há anos fazem falta em Sintra?

Para quando a introdução de acessos adequados para deficientes em todos os monumentos de Sintra?

Para quando a criação de contratos-programa para parcerias estratégicas entre as entidades públicas locais e as associações e agentes culturais locais?

Para quando a recuperação museológica dos monumentos romanos no Vale de S. Martinho, à saída de Sintra para Lourel?

Para quando a revitalização do Instituto de Sintra que tão boas provas deu já no passado?

Para quando a revitalização com apoio das associações locais do subocupado Centro de Arte Moderna, agora que perdeu a colecção Berardo?

Para quando a recuperação do Hotel Netto, verdadeira gangrena em pleno centro histórico?

Porque não instalar um Centro de Estudos do Romantismo em Monserrate?

Para quando um fundo de apoio à cultura com uma percentagem da cobrança das coimas e taxas provindas das actividades económicas, gerido em cada freguesia pela respectiva junta?

Para quando uma campanha agressiva de combate aos tags que vandalizam o património público e privado e dão uma imagem de incúria e desleixo?

Para quando a criação de hortas comunitárias em muitos baldios, agora que se propugna o regresso à terra?
O que vai acontecer ao Museu do Brinquedo, agora que a lei asfixia o seu funcionamento?

E, por fim, e para já, porque não submeter os abates e podas agressivas de árvores ao parecer vinculativo dum Conselho Municipal de Ambiente onde tivessem assento as instituições e representantes das comunidades locais?