quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um registo paroquial de 1689, por Rui Oliveira

RUI OLIVEIRA
Estudioso e Divulgador de História Local



A História Local tem como função primordial, mas não a única, despertar o amor inteligente à terra e ajudar a explicar, em sentido profundo, a razão das coisas e das atitudes que neste campo da História, a Local, tem ramificações algo complexas que nos conduzem ao indivíduo, nosso vizinho, antigo e recente. A sua investigação tem aspectos e instrumentos multidisciplinares importantes. Uma das áreas mais interessantes são precisamente os vários registo paroquiais, os de casamentos, de baptizados e de óbitos.

Temos aqui um exemplo do que acabo de referir; reporta-se à Paróquia de São Pedro de Sintra, trata-se do Livro de Registos Mistos –B1- contém este, Livro, registo interessante de Baptismos, Casamentos, Óbitos e até Crismas,  daí a sua designação de Misto. Deixo aqui a leitura de um registo curioso (e bem ilustrativo de uma época) de baptismo de uma criança filha da escrava Barbara.
 



Em os seis de Setembro de mil e seis centos / e oitenta e nove, de minha comissão [incumbência temporária] bapti / zou o P.e [Padre] Domingos da Matta ecónimo [função de administrador] nesta / ig.a[igreja], a An.to[António] fo [filho], que se dis ser de g.ar[gaspar] dias, / e de Barbora escrava de An.io [António] Cardeira da Rib.ra de penha Longa e o ditto gas- / par dias serve na ditta caza de An.io[António] Card.ra [Cardeira]: foraò padrinhos M.el [Manuel] do es / pirito S.to fo[filho] de Dionizio Jorge deste / Lugar de Saò P.ro [Pedro] e de Cn.a[Catarina] Fr.ca[Francisca] do ditto Lugar / de Penha Longa. //
                               O P.e[Padre] cura An.to[António] Canaval


Normas de transliteração e transcrição:
Mudança de linha no documento assinada com / dupla quando paragrafo //; Desdobra de abreviaturas feita entre parêntesis rectos [ ] com a inclusão dos caracteres por nós colocados a vermelho “A “; a negrito e itálico o texto; Mantivemos a forma de acentuação tal como o escrevente a exarou.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Rolando pela várzea

PEDRO MACIEIRA

Numa altura em que um amigo do eléctrico nos deixou - mais uma razão para a defesa de uma imagem de marca de Sintra,parte integrante da paisagem e um museu vivo a que os sintrenses devem dar toda a atenção, para que a sua preservação continue.



Viver o Património de Sintra

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Quando se fala em Património é necessário que não se tenha em conta apenas o património edificado – as igrejas, os palácios, os castelos, as fortificações, etc. O conceito de Património deve incluir a riqueza das paisagens, da fauna e flora existentes, os usos e costumes, as lendas, o vestuário tradicional, a gastronomia, os instrumentos de trabalho de outros tempos, as particularidades da Língua, a música, etc.

Património não é uma realidade estática – renova-se e (re)constrói-se em cada dia. Tem raízes no passado mas evolui no presente para se projectar no futuro de uma Comunidade. Deve ser preservado mas, simultaneamente, ter sempre novas páginas em branco para preencher. Tem que ser conhecido e usufruído para que todos entendam a sua relevância e contribuam activamente para a sua preservação.

Muito daquilo que hoje consideramos como Património resultou, na época em que foi concebido ou erigido, de processos de inovação e, em certos casos, até constituiu motivo de alguma polémica circunstancial. Nos alicerces de muitos dos monumentos que nos rodeiam nos dias de hoje, dormem as ruínas de património de outras eras…

Sintra tem uma riqueza incomensurável no Património que possui. Esse Património constitui-se como legado universal e, como tal, deve, acima de tudo, começar por ser amado e respeitado pelos habitantes do próprio Concelho. Isso só acontecerá se existir um plano concertado e persistente de divulgação, abertura, envolvimento, colaboração e “familiarização” dos Sintrenses com o seu Património. Estima-se e respeita-se aquilo que consideramos como “nosso”. Preserva-se e divulga-se aquilo em que nos consideramos envolvidos.

Esse é um desafio permanente – viver e fazer (re) viver o nosso Património em cada dia. Aproximá-lo de quem, no seu dia a dia, pouco se apercebe da sua relevância ou a acha responsabilidade de “outros”. Torná-lo “visita de casa” dos grandes aglomerados urbanos, com a realização de eventos ou promoção regular de iniciativas que o coloquem no centro da vida actual e “surpreendam” o quotidiano cinzento. Estabelecer compromissos em que cada habitante do Concelho se sinta um “guardião” deste “tesouro” que é motor de desenvolvimento, gerador de emprego, factor de progresso.

Creio que essa será a melhor forma não só de preservar o actual Património mas também de contribuir para que se acrescentem novas páginas a este “livro” que resulta de uma “escrita” permanente.

 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A escultura


GONÇALO NUNO NEVES
 
Que desespero! Que calor! Quanto tempo terei eu até conseguir produzir a mais bela das esculturas; o mártir da arte esculpida e apóstolo da sua própria significação?!...

Estou nu, proporcionando o meu devir mortuário. Quanto não pagava por uma mortalha, embora com outra finalidade!: a de me proteger dos raios solares deste deserto e salvaguardar-me mais uns minutos na continuação da vida. Não por viver mais tempo para não morrer mais cedo, mas para viver mais tempo para que surja a ideia brilhante de uma escultura única que transmita ao mundo, só pela imagem e forma, a realidade de uma ideia que ainda não tive; dessa ideia brilhante que, só por si, contém a exclusividade de um acto que ainda não foi feito.

Tenho mesmo muito pouco tempo para tal empreendimento. Já cuspi e derramei a minha saliva sobre a areia, de maneira a unir as partículas num conjunto alargado das mesmas – talvez uma tentativa simbólica de exaltar o Particular no Universal. Mas não consegui fazer da areia barro, nem tão-pouco originar argamassa! Que desilusão! Que intensidade positiva de graus!! Quanto tempo ainda terei?!...

Lágrimas cerebriformes caíram sobre um último aglomerado “ensalivado” de partículas de pequenas pedras desgastadas pelo tempo e pelo espaço de outras outrora enormes. Deu-se um certo brilho linear desde os meus olhos até ao aglomerado, pois assim tinha pensado ter tido a tal ideia brilhante. As lágrimas fizeram-me reparar, não na minha palidez de espírito, mas no rosado de todo o meu corpo. E isso contribuiu para que me sangrasse, porque era o terceiro elemento numa trilogia compartilhada pelo sal. Veria assim “conservada” a minha ideia.

Mas não! Novamente dores de angústia vasculharam todo o volume da minha existência! Nem com a pasta de sangue consegui erguer uma só estátua, um só busto, nem um pequeníssimo baixo-ou-alto-relevo. Rapidamente o sangue secava, dilatava e juntava-se às partículas, contribuindo para a expansão do deserto. As lágrimas começaram até a enxugarem-se antes mesmo de existirem. Quanto à saliva, já nem sabia se isso era possível!...

Foi então que, assistindo ao meu estado deplorável – que recuso avidamente em descrevê-lo –, me apercebi de que era eu a escultura. Era a forma desviante na forma dominante. Estava realçada a ideia brilhante e a consequência era a acção contínua da erosão sobre mim; eu era o representante do desgaste, da decomposição da matéria no ciclo do tempo.

E tudo o que fiz foi “disformar-me” em tortulho, como símbolo do meu devir: da representação da ideia brilhante.

“ESCULTUREI-ME”!!!...