quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Assessor

FERNANDO MORAIS GOMES

Rodrigo acelerava em direcção ao ministério, a manhã fria e alguns minutos de atraso provocariam mossa no  saldo de horas, o sistema biométrico da assiduidade a denunciar, irritante. Licenciado em Relações Internacionais, o pai arranjara uma cunha no Ministério da Agricultura, onde o serviço não apertava,  ocioso  grande parte do dia, tudo afinal decidido em Bruxelas. Nas muitas horas vagas, jogava Farmville, a única quinta onde  lidaria com porcos e vacas sem sequer ver agricultores.

Naquela manhã, para variar, havia que fazer um relatório para o ministro, no Parlamento esgrimia-se o argumento das quotas, litros de leite desperdiçados aos milhares para cumprimento da PAC. Um escândalo, gritava teatral um deputado da oposição, que nunca vira uma vaca mas a quem patrióticas preocupações motivavam tiradas shakespearianas no hemiciclo, sublinhadas pelos muito bem! dos correlegionários ensaiados.

Maçado, Rodrigo, lá colidiu as informações solicitadas, estaria ocupado, ao menos. Com sorte escapara ao corte no vencimento, aumentado 10% em Novembro para agora tirarem 4%, o director-geral fora colega do pai no Colégio Militar e amigo. Imprimindo o árido relatório cheio de barras com as explorações e gráficos do leite, suspirava por um lugar onde pudesse fazer outras coisas e viver o perfume da civilização, longe daquele sonolento gabinete, onde o café mais próximo vendia chamuças oleosas e bolos de arroz com quinze dias.

O telefone tocou entretanto. O ministro chamava para um briefing, era preciso ensaiar o discurso, colocar um ar competente e de domínio dos dossiês, na intervenção da tarde. Os números ajudavam a oposição e havia que dourar a pílula. A ver se não demorava, marcara uma massagem no Holmes Place às seis, e queria despachar a questão das vacas. Aproveitando o momento, Rodrigo, zurziu na má-fé da oposição, ingrata, que não reconhecia o árido  trabalho em prol dos agricultores que ali se produzia para com denodo salvar a pecuária nacional. Sobre as quotas do leite aventou uma ideia:

-Senhor ministro, há hipótese de darmos uma interpretação diferente aos números da campanha do leite…

-Sim?...Diga diga, Rodrigo, sou todo ouvidos.

-É assim: Bruxelas fixou uma quota de 4 milhões de litros para a campanha deste ano, e os produtores durante a campanha obtiveram 5,5 milhões não é? -foi avançando, nunca vira uma vasilha de leite, mas os números não haviam de mentir.

-Sim, e pelas regras da PAC, temos de eliminar do circuito esse leite, não pode ser comercializado, senão  pagam-se pesadas multas.

Rodrigo, já iniciado em manobras políticas na secção do partido em Algés, gizou um plano:

-Sugeria uma coisa: por um lado, rectificar as estatísticas, anunciando-se que não era em litros de leite, mas em número de recipientes que os números estavam a ser contabilizados, e notificar o EUROSTAT. Aliás, temos lá o Bernardo, que  é do partido, pode dar uma ajuda; e por outro, atirar a responsabilidade do descontrolo para o governo regional dos Açores. Os tipos não se puseram de fora na questão dos impostos? Pois agora chuta-se a bola para o lado deles, que se amanhem. E no Parlamento o senhor ministro pode ainda contra-atacar abrindo uma linha de crédito para os agricultores do oeste, e assim calar os detractores…

O ministro rejubilou, boa cartada:

-Excelente, Rodrigo, ainda bem que o tenho cá no ministério!. Olga, prepare já um despacho anunciando uma linha de crédito, o Rodrigo dita o que for preciso. Depois, daqui a dois meses suprime-se e alega-se que a situação exige mais sacrifícios ao país…

Rodrigo sorriu, triunfante. Como é que ainda não estava em Paris a servir num gabinete da embaixada?. Durante a tarde, o ministro lá colocou um ar responsável, sem horas de sono em prol da pecuária nacional, e o debate foi levado para os apoios e a linha de crédito, aplaudida de pé pela bancada do Governo.

Oito dias depois, arrumava Rodrigo o carro no parque do ministério quando o telemóvel tocou. O ministro queria falar-lhe, a voz séria sugeria urgência. Pensou que a história do leite se calhar azedara e com a calma possível acelerou o passo. No gabinete, o ministro, bem-disposto, saudou-o cordialmente, oferecendo café, e deu-lhe a notícia: o Governo reconhecia a extraordinária preparação de Rodrigo em assuntos agrícolas e os seus conhecimentos do mundo da lavoura, e nomeava-o  Secretário de Estado da Agricultura, a posse seria dois dias depois. Depois do pasmo, rejubilou, recebendo um abraço do ministro e sendo à tarde muito saudado pelos amigos no Pavilhão Chinês. Afinal, arengou, saboreando um martini, a agricultura era o futuro do país, ecológica e sustentável, com espírito de missão cumpriria o lugar, estoicamente suportando as maçadoras  deslocações a Bruxelas para as reuniões quinzenais. Enquanto os restaurantes da Grand Place mantivessem o cardápio de vinho e queijos, a tudo se sacrificaria em prol do país e do mundo rural.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quando eu fui para o ciclo preparatório a Estefânia era assim!

JOSÉ CARLOS SERRANO

Quando eu fui para o ciclo preparatório a Estefânia era assim!

Para mim era uma cidade. Tinha todos os estabelecimentos, senão vejam!


Quando subia a Rua Dr. Alfredo Costa começava um mundo novo.


Tinha a correnteza,  com um belo jardim, depois: o Edifício dos TLP, donde saiam os homens para todo o concelho; uma sapataria; o Zé barbeiro; o Zé Silvestre, loja de tecidos e retrosaria; o António Augusto de Carvalho, das bicicletas e vespas, ganhou uma volta a Portugal; o alfaiate, Narciso, e loja de moda; o Banco Pinto e Sotto Mayor; a farmácia Marrazes; a Pensão Nova Sintra; o talho do Simplício; a loja do José Duarte Filipe; a Pastelaria Ideal; a ourivesaria Santos; os armazéns do Minho, de roupas; as  radiografias do Cadete; o Brancana, artigos de caça e pesca; a oficina da Ford, com as bombas de gasolina da Sacor; a ourivesaria Faria; a padaria; uma papelaria; a Gazcidla: a loja do Pombal; a Jodi, de brinquedos; uma taberna; uma loja de lãs; outra loja do Pombal, de móveis; a loja do Santana, retrosaria e arranjo de meias de vidro; a Sintra Garagem, recolha de carros e lubrificação; as pastelarias Tirol e Monserrate; o Jornal de Sintra; a loja da Singer; a loja do Joaquim de Galamares, mercearia e loiças; o Talho do Hermenegildo; o João de Olívia, frutas e legumes; a Sapataria Royal; a loja de decoração do A. Cunha; o cabeleireiro do Lúcio; uma costureira; a drogaria do A. Cunha; a loja, de roupas e moda, do Capote; a papelaria, e valores selados, Parracho; a ourivesaria Granja; a farmácia Simões, a loja, de fruta, da URCA; a TeleSintra, de eletrodomésticos; a pensão Económica; mais um talho; o Granja, fotógrafo; a loja Capricho, loiças e café; a mercearia, bem grande, dos Baetas; o Banco Totta e Açores: a loja do Sr. Nascimento, máquinas de costura e venda de gaz; o posto dos correios; a loja de móveis, do Paulo Raio; a loja de brinquedos, do Afonso; a sapataria Carreira; outra loja do Zé Silvestre e, finalmente, a drogaria Santos.


Atravessando todo este “mundo”, avisto, finalmente, o Casino, a minha futura escola!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Danos Colaterais

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Há muitos meses que a angústia era imensa.

Os cortes nos salários de ambos tinham dado uma machadada definitiva na tranquilidade dos seus dias. Por mais contas que fizessem, o dinheiro não chegava para cumprir com tudo - antes já era à justa, mas conseguiam, mesmo com sacrifícios. Além dos cortes no rendimento, os impostos tinham aumentado e tudo se complicara. Mesmo vendendo o carro (ainda por cima já antigo e com pouco valor) já não havia saída. Nenhum deles conseguia dormir há mais de 6 meses - pensavam enganar-se mutuamente fingindo repousar, mas os olhos de ambos fixavam-se no escuro do quarto e não conseguiam fechar-se. Choravam sem fazer barulho algum e, de manhã, evitavam fitar-se olhos nos olhos. Ambos andavam a tomar calmantes que o médico receitara, mas remédio algum conseguia sossegar aquele demónio a roer-lhes a alma.

Temiam a vergonha, eles que sempre tinham tido uma vida normal. Não eram ricos, nem nunca ansiaram ser - mas tinham uma vida feliz, mesmo quando era mais complicada, sempre se arranjara uma forma de ultrapassar. Mas agora tudo ruíra...

Trabalhando para o Estado eram "apontados" como mera "despesa", por mais esforço e brio que tivessem no seu desempenho nada lhes era reconhecido, tinham-se transformado em "objectos" descartáveis e até o seu sustento lhes fora "confiscado" sem apelo nem agravo. "Sagrados", só os contratos com a banca privada. "Sagrados", só os compromissos com os "mercados". Os contratos e compromissos com quem trabalhava tinham-se tornado letra morta, papel de jornal velho, nada. Tudo o que era verdade passara a ser mentira e vice versa. Os direitos eram agora "regalias" a abater. As regras eram agora "empecilhos ao desenvolvimento". Estavam presos a tarefas mal pagas e desprestigiadas. Estavam presos a compromissos que lhes tinham possibilitado ter um mínimo de conforto, porque não tendo nascido em berço de ouro tudo o que possuíam viera do seu esforço, do seu trabalho.

A casa deixara de ser um refúgio – transformara-se num mausoléu de ansiedade e medo. Era indiferente se amanhecia com sol ou com chuva - mal acordavam só conseguiam pensar em contas de somar e diminuir, em compromissos com data ultrapassada, em cartas de bancos, em despesas, em dívidas, em problemas.

Um dia, sem uma palavra, os seus olhos finalmente cruzaram-se no quarto, ao final do dia. Não era preciso acrescentar mais nada. Ela viu o jovem com quem casara, alegre, optimista, ambicioso, trabalhador - ali transformado num velho precoce, cheio de angústias sem sossego. Ele viu a adolescente com quem sempre namorara, casara, amara e vivera uma vida inteira - ali transfigurada numa mulher triste, sofredora, amarga. Sem uma palavra ambos entenderam que jamais teriam paz, jamais conseguiriam enfrentar a censura alheia, jamais conseguiriam recuperar o sono tranquilo e a simples alegria de despertar tranquilamente.

Fecharam a porta de casa à chave. Fecharam a porta do quarto devagar. Amaram-se pela última vez como da primeira. Tomaram todos os comprimidos que o médico lhes dera para acalmar a fera interior. E partiram - para sempre.

domingo, 6 de outubro de 2013

Ontem andei a pé na minha Sintra

BÁRBARA JORDÃO RODHNER






Ontem andei a pé na minha Sintra.
Era noite e era dia.
Parei de frente a uma casa abandonada outrora ardida em horrores.
semi cor de rosa e semi apagada Já foi vendida e recomprada mil vezes;
Mil vezes vendida e recomprada mas jamais restaurada…

Á medida que A olhava Ela olhava-me de volta e sem volta para mim.

Chamou-me à atenção uma janela;
uma janela que foi abandonada, aberta
Chamou-me à atenção as vidas que ali foram abandonadas, sonhos esquecidos fechados e largados.

QUEM VIVEU ALI?

Enquanto a mente cavalgava rapida e palpitante as lagrimas escorriam.
Sintra, sintra minha...
Enlouquece-me a loucura do abandono
Da Ruina.
Enlouquece-me a loucura de se poder comprar para abandonar,
Enlouquece-me ser possível TER para se Largar.
Onde foi parar o restaurar, o recriar, o reconstruir?

Enlouquece-me esta Sintra perdida, caída.
Enlouquecem-me as vozes que susurram de dentro e por dentro das paredes

Anda…Anda minha menina...
Fecha-me a janela, acende-me a lareira, refaz-me com a tua vida.
Habita-me. Ama-me. Cuida-me. Nutre-me… Faz de mim o t'Eu ninho.

e ao enlouquecer, enlouquecida enlouqueci.
Fugi.

Para dentro da minha casa não fosse aquele feitiço prender-me ali.
Perdida.Amarrada Sonhei no centro do meu leito.

Havia um Homem de cabelo branco, velho.
Arrombava-me a porta.
Eu via.
Eu impedia.

Ele dizia…
Podes-te esconder, mas eu vou-te sempre reencontrar
Estás perdida.
Estás assombrada.

.
Sintra, sintra minha, ao quanto me obrigas quando tens dias assim...
São noites tortas, enviuvadas que se traduzem em palavras encavalitadas que me dizem tanto e provavelmente quase nada. Servem-me os horrores para escrever contos aos setenta e seis anos de idade que hei-de completar depois do dia em que não morri.

Obrigada Sintra Cinza Minha.

Bárbara Jordão Rodhner


sábado, 5 de outubro de 2013

0 5 de Outubro em Sintra

FERNANDO MORAIS GOMES

Em Sintra, a 5 de Outubro de 1910, o directório do Partido Republicano Português designou Tomé de Barros Queiróz, figura de destaque na época e ligado a Sintra, onde tinha um chalet, para proceder à sua proclamação solene. Barros Queiróz havia chegado a Sintra em meados de Setembro, vindo de férias nas termas, e aqui recebeu a notícia da morte de um dos chefes da revolta, o Dr. Miguel Bombarda. Confirmado o sucesso do movimento militar, Barros Queiróz foi  convidado pelo PRP para proclamar a República em nome da Junta Revolucionária, tendo sido designados para o acompanhar nesse momento histórico o jornalista João Chagas,  bem como José Barbosa e Malva do Vale. Foi assim que um grupo de apoiantes do novo regime se concentrou junto com Barros Queiróz no local onde hoje fica a Praça Afonso de Albuquerque para esperar os outros enviados do PRP. Alguns deles, armados, inclusive já desde alguns dias guardavam residências de políticos e figuras destacadas do regime monárquico, entre as quais a de João Franco, que veraneava em Sintra com a família real, e que tinha sido um dos protagonistas do odiado governo que em 1908 custou a vida ao rei D.Carlos, e que agora, paradoxalmente, era protegido na sua pessoa e bens pelos revolucionários, para evitar pilhagens e actos de vandalismo. Entre os que protegeram João Franco em Sintra contou-se o filho de Barros Queirós, Daniel, com 19 anos na altura, sendo que João Franco, apesar do reviralho que se adivinhava, mandou servir comida e café àqueles que se preparavam para alterar o regime que ele servira.
Estavam os populares reunidos quando chegou um dos poucos carros que havia naquele tempo, ostentando uma bandeira verde rubra, ao que os populares responderam com vivas à República. Nessa viatura vinha uma eufórica senhora de apelido Quaresma Val do Rio Barreto.Passado um tempo, uma outra viatura, aberta, transportava duas figuras vestidas de escuro. Eram a rainha D.Amélia e uma camarista, que, vindas da Pena, se dirigiam a Mafra a juntar-se ao deposto rei D.Manuel, de onde partiriam posteriormente em direcção a Inglaterra. Barros Queiróz, reconhecendo a rainha, tirou o seu chapéu, e silenciando os vivas à República, saudou com cortesia a real figura, no que foi acompanhado pelos demais. Revoluções à portuguesa, dirão alguns…
Finalmente chegou o grupo vindo de Lisboa, e todos se dirigiram à varanda dos Paços do Concelho (os actuais, que haviam sido inaugurados um ano antes, em 1909), e proclamaram solenemente a República Portuguesa, tendo na altura sido anunciados Formigal de Morais como presidente da Câmara Municipal de Sintra e Gregório Casimiro Ribeiro como administrador do concelho. Todo o dia foi de festa em Sintra, tendo uma banda de música percorrido a vila em clima de euforia e júbilo.
Tomé de Barros Queiróz foi deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública, Presidente do Conselho de Ministros e membro da Maçonaria. Nascido em Quintãs, Ílhavo, filho de modestos lavradores, veio muito cedo para Lisboa, começando a trabalhar aos 8 anos como caixeiro numa casa comercial. Apenas na década de 1890 conseguiu matricular-se na Escola Elementar de Comércio de Lisboa. Em 1888 tornou-se militante do Partido Republicano Português, ascendendo rapidamente a lugares cimeiros na direcção daquele partido. Envolvido nas lutas operárias, foi um dos promotores da criação da Associação dos Caixeiros Nocturnos de Lisboa, ligando-se por essa via à imprensa, sendo fundador de A Voz do Caixeiro e colaborando no periódico O Caixeiro.
Eleito em listas republicanas, foi entre 1908 e 1911 presidente da Junta de Freguesia de Santa Justa e vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Como referido, foi ele quem proclamou a República em Sintra em 5 de Outubro de 1910, e representou Sintra na Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1911, ao ser eleito deputado por Torres Vedras nas primeiras eleições após o 5 de Outubro, pois esse círculo englobava Torres Vedras, Lourinhã, Sintra e Cascais, entre outros locais, tendo obtido 7609 votos.
Com a cisão do Partido Republicano Português após a proclamação da República, integrou o Partido Unionista, onde militou entre 1911 e 1919. Foi também secretário-geral e director-geral da Fazenda Pública, cargo no qual foi o principal autor da reforma tributária de 1911. Como deputado por Torres Vedras, no mandato de 1911 a 1915, foi escolhido para vice-presidente da Câmara dos Deputados, apresentando então um parecer, à época considerado excepcional, sobre a Lei de Meios de 1912-1913 (o orçamento do Estado à altura).
Em 1912 iniciou-se na Maçonaria, na loja Acácia, de Lisboa, adoptando o nome simbólico de Garibaldi.
Na sequência da revolução de 14 de Maio de 1915, aceitou o lugar de Ministro das Finanças, cargo que exerceu até 18 de Junho de 1916.
Mantendo-se na actividade política, já em período de degenerescência da Primeira República voltou ao Governo no período entre 24 de Maio e 30 de Agosto de 1921, como presidente do Conselho de Ministros (o título do Primeiro Ministro à época), acumulando com a sua antiga pasta das Finanças. O seu curto mandato à frente do governo português ficou marcado pela profunda crise financeira do Estado e por uma tentativa desesperada de recorrer ao crédito externo, através da contracção de um empréstimo de 50 milhões de dólares na América. Este empréstimo, anunciado como salvador pelo líder republicano Afonso Costa, acabou por não se materializar. Em 1922 foi eleito deputado pelo círculo açoriano da Horta, reingressando nesse mesmo ano pelo círculo de Lisboa, mantendo-se no parlamento até 1924. A partir de 1923 passou a militar no Partido Nacionalista. Faleceu em Lisboa a 5 de Maio de 1926, já em pleno ano final da Primeira República Portuguesa de que fora um dos fundadores.
A ligação de Tomé de Barros Queiróz a Sintra vinha já de antes do 5 de Outubro, pois aqui adquiriu um chalet na antiga avenida Alda, no final da actual Av. Heliodoro Salgado, onde teve por vizinho Henrique Santana, pai do grande actor Vasco Santana, que contava na altura 12 anos, e vivia com uma senhora espanhola de nome Pepa. Sendo a casa de Barros Queiróz de 6 divisões e a de Henrique Santana de 12, e tendo Barros Queiróz 4 filhos, fizeram uma permuta de casas, instalando-se Barros Queiróz no popularmente designado “Chalet Nabo” pela forma de nabo em que terminava a cúpula aí construída, precedida duma escada de caracol. Nesse local se realizaram muitas tertúlias e encontros.Em 1913, sendo Estevão de Vasconcelos Ministro do Fomento, intercedeu Barros Queiroz para o arranjo urbanístico do local onde hoje está o jardim da Correnteza.
Depois da sua morte, em Maio de 1925,a Câmara Municipal de Sintra presidida pelo então presidente da Comissão Administrativa, capitão Craveiro Lopes (futuro Presidente da República) inaugurou uma rua com o seu nome, no 5 de Outubro de 1926,cerimónia que contou com muitos vultos nacionais bem como locais, dos quais se destacavam o dr.Virgílio Horta e Eduardo Frutuoso Gaio. Uma coincidência haveria de ocorrer mais tarde durante a recuperação urbanística da Correnteza que ele em 1913 preconizara: os candeeiros de iluminação pública aí ainda hoje existentes, viriam a ser adquiridos numa loja da família Barros Queiroz no Largo de S.Domingos, em Lisboa.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O messianismo de Vieira não é só nosso

JOÃO RODIL

Ao contrário de outros tempos e de outras mentes mais arejadas, aqueles tempos e aquelas mentes que levavam a Europa ao Mundo e traziam o Mundo à Europa, temos hoje a mania de açambarcarmos tudo aquilo que achamos nosso. Guardamos a coisa como um segredo, a pensarmos que possuímos um tesouro velado que, afinal, toda a gente conhece.

Em meu entender, por fraco que seja, essa maneira aporrinhada e mesquinha de esconder a portugalidade tem consequências dramáticas no espalhar – que se desejava contínuo – de algumas mensagens boas que largamos ao Mundo. É limitada e limitativa. Coloca fronteiras, muros e grades ao pensamento.

Mas isto é apenas aquilo que nós pensamos e de pouco vale esta forma de agir para o resto do globo. E ainda bem, digo eu.

Deste legado nosso que aferrolhamos a sete chaves faz parte – ou é porção importante – o caso do messianismo português, sebastianista e à espera do V Império, tão bem expressado e condensado pelo Padre António Vieira e que, ainda hoje, felizmente, tem muitos seguidores e continuadores. Destes últimos, só dois nomes maiores, para não engrossar a lista: Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

Ora, acontece que Vieira também deixou a sua corrente a vogar no sangue do povo brasileiro. Há uma impressão, eu diria uma tatuagem, messiânica também na alma do Brasil. E, tal como deste lado do oceano, por lá os pensadores, os artistas, essa massa entrelaçada de gente que conhece o ontem, escuta o hoje e pensa o amanhã, continua, igualmente, a adubar a terra onde se plantam esses sentimentos.

É mais evidente, outra vez na minha fraca visão, no caso do movimento Tropicália, com Caetano Veloso e Gilberto Gil à cabeça. Mas ele tem lugar proeminente também na literatura brasileira, com uma expressão bastante profunda e nada aparente em João Ubaldo Ribeiro, ou no cinema de Glauber Rocha.

E há outra coisa ainda, que não sei se é toda linda. O Brasil até conservou melhor o Culto do Espírito Santo, bandeira e baluarte do Mundo que há-de vir. Portanto, em vez de grades devíamos andar a construir pontes, a abrir rotas de torna-viagem, que proporcionassem um reencontro de espíritos comuns com caminhadas comuns. Nesta e noutras matérias, evidentemente.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Byron, 4 dias em Sintra

FERNANDO MORAIS GOMES

Quando se fala de Sintra no sec XIX a figura mais recorrente é a de Byron,que no seu Child Harold's Pilgrimage dedica uns versos a Sintra:

"Lo! Cintra's glorious Eden intervenes

In variegated maze of mount and glen.

Ah me! what hand can pencil guide, or pen,

To follow half on which the eye dilates

Through views more dazzling unto mortal ken

Than those whereof such things the bard relates,

Who to the awe-struck world unlocked Elysium's gates?"

LER VERSÃO COMPLETA EM


Lord Byron, ou George Noel Gordon, tinha 21 anos quando a 7 de Julho de 1809 chega a Lisboa, em plena ocupação francesa e inglesa, com o rei no Brasil e a anarquia nas ruas. Embarcara em Falmouth, com o seu amigo John Hobhouse e os criados Fletcher, Murray e Bob, e já era membro da Câmara dos Lordes e autor editado nessa altura. Visitou Sintra, Mafra e Lisboa, e deixou Portugal a 17 de Julho, tendo permanecido apenas 10 dias entre nós, mas os suficientes para desprezar os portugueses(“terra sanguinária onde a lei não basta para proteger a vida”) e emular a bela e verdejante Sintra

Consigo viajou em 1809 um outro inglês, John Cam Hobhouse, que nos deixou um relato da sua visita a Sintra, no âmbito dum diário de viagem escrito em latim, e de que respingamos extratos, traduzidos em português:

2ªF,12 de Julho de 1809"-Fui com Marsden de caleche até Sintra, numa estrada com muitas curvas, três jugos de vinho, pão e queijo e trinta dinheiros. Vimos o palácio de Marialva em Sintra e os jardins de Monserrate, antes propriedade do sodomita inglês Beckford, agora deserto e sem mobília. Entretanto, Byron foi a Mafra visitar o palácio e convento, onde antes da invasão francesa os frades eram 150 e agora só 30 (...)Jantei em Sintra com três clérigos Scott, Simmons e Turner e passei lá a noite"

3ªF,13 de Julho de 1809-"De burro, fomos a Nossa Senhora da Pena, ao mosteiro de S.Jerónimo onde vivem 4 monges, pobres mas não mal vestidos. E ao Cork Convent (Capuchos?)na parte mais alta da região, com 17 franciscanos que não comiam carne nem bebiam vinho e se flagelavam. Mostraram-nos uma cave no jardim (...)o seu abade pôs-nos queijo e laranjas numa mesa de pedra. Descemos então das alturas e visitámos Colares, bela vila, com vinho abundante, clarete, e tornámos a Monserrate, um palácio só excedido pelo de Marialva em Sintra. Aí jantámos com o bom reverendo Turner. Noite em Sintra".

4ªF,14 de Julho de 1809-"-Fomos visitar com Byron, e por sugestão da irmã de Marialva, o seu palácio, ricamente decorado em estilo inglês(Seteais)e estivemos na sala onde a famosa Convenção  foi assinada e vimos um mosteiro do lado oposto. Dissemos adeus a Sintra, onde havia no hotel vários hóspedes embriagados e uma mulher suja irlandesa nos entregou uma monstruosa conta de 40 dollars e meio (...) Lendo acerca de Sintra, descubro que a humidade é causada por exalações de vapor"

A 16,escrevia Byron para Inglaterra:

“Ao Sr. Hodgson] "Lisboa, 16 de Julho de 1809."

"Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, &c., - o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.

Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, - e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.

Quando os portugueses são pertinazes, eu digo 'Carracho!' - a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de 'Damme!' - e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o 'Ambra di merdo' [por 'Homem de merda' ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, 'Avra bouro' [por 'Arre burro' ?], que significa 'Get an ass' ['Arranja um burro' ...!?!, obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento.

Amanhã começaremos a percorrer cerca de 400 milhas até Gibraltar, onde embarcaremos para Melita [por 'Melilla' ?] e Bizâncio. Uma carta para Malta aí me encontrará, ou será reexpedida caso eu esteja ausente. Rogo-te que abraces o Drury e o Dwyer, e todos os Efésios que encontres. Escrevo com o lápis que me foi dado pelo Butler, o que torna o mau estado da minha [escrita?] mão ainda pior. Perdoa a ilegibilidade.

Hodgson! Envia-me as novidades, e as mortes e as derrotas e crimes capitais e as desgraças dos amigos; e dá-nos conta das questões literárias, e das controvérsias e das críticas. Tudo isto será agradável - 'Suave mari magno, &c.'. A propósito, tenho andado enjoado e farto do mar. Adieu."

Depois, foi o regresso a Lisboa, onde a 17, rumou a Sevilha, enquanto o seu companheiro e os criados seguiam para Gibraltar. Para sempre ficou o Delicious Eden....


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Caminhando em Sintra


JORGE TELLES DE MENEZES













Oh nuvens,

em  castelos que já viram

a glória de David,

e espantaram o olhar profundo

de Turner e outros românticos!



Com a vossa passagem

tornam-se misteriosos, dramáticos,

os cânticos de Ossian,

e os quadros de Friedrich.



A marcha dos povos no céu,

por Rimbaud ao contrário visionada,

tinha-vos por assento;

ao Gama haveis celebrado

a visão em duas faces.


24 de Julho de 1986