quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Civismo

JOÃO DE MELLO ALVIM

Quem tiver de passar pela rua António Cunha durante o tempo de aulas da escola D. Fernando II (acho que tem mais uns números à frente), depara-se com uma aula de deseducação cívica ao ar livre, pronta a servir e sem gastos nenhuns para o Estado, como convém aos actuais governantes.
Partindo do princípio que a escola é um lugar de partilha de várias disciplinas importantes à formação do indivíduo – que os professores transformados em máquinas de fazer reuniões e estatísticas, cada vez têm menos tempo para preparar e transmitir -, mas também um lugar para semear sentimentos e valores, como reagirão os alunos à completa falta de respeito pelo espaço público, que se assiste ao ver os automóveis estacionados em cima dos passeios na referida rua?
Não sei a história, nem conheço as mentes brilhantes que se lembraram de instalar a  D. Fernando II num lugar como aquele – outrora um lindíssimo vale, dizem-me -, servida apenas por uma rua de bairro, com um único sentido. Bem pode o Frei Tomás pregar o civismo todo dentro da escola, que cá fora a realidade faz a desmontagem da pregação em três tempos. A não ser que seja propositadamente tolerada pelas autoridades municipais com competência na matéria, como exemplo diário ao vivo, a cores e aos berros (especialmente à hora de mudança de turno) de como não se deve fazer na defesa do espaço público.
(Este, e outros artigos do autor, podem também ser lidos no blogue http://tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com/ )

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Na mira dos Mirós

RENATO EPIFÂNIO

Tendo em conta o conhecido enquadramento financeiro em que nos encontramos, devemos discutir quais devem ser as prioridades na nossa política cultural, que pode e deve continuar a existir. Decerto, pode haver uma significativa pluralidade de perspetivas, todas elas legítimas e devidamente fundamentadas. De algo, porém, estou certo. Em caso algum, sobretudo neste contexto, a prioridade deve ser a preservação em território nacional de quase uma centena de quadros de um pintor catalão, por muito importante que ele tenha sido na história da pintura em geral, quando muito do nosso património se encontra, por escassez de recursos, em flagrante degradação. De resto, era isso, simplesmente, que deveria ser exigido pela nossa dita “oposição”: que o resultado da venda dos quadros revertesse para a preservação do nosso património. Mas isso, claro está, seria pedir demais.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

No tempo em que havia o Pinóquio em Sintra!


JOSÉ CARLOS SERRANO

O Pinóquio era um cão, de porte grande, preto, com umas malhas castanhas, cauda curta.

Nunca entendi quem era o dono. Era das pessoas!

Ou estava na Vila ou na Estação, de Sintra.

Com a particularidade de ser um bicho muito inteligente!

Davam-lhe uma moeda e ele ia ao Café Camélia, com a moeda na boca, deixava cair a moeda no balcão e recebia um pacote de açúcar ou um bolo.

Havia, como ainda há, pessoas mal intencionadas.

O meu pai era motorista da Cooperativa de Produtores de Leite de Sintra. Andava pelo Concelho de Sintra, a recolher o leite pelos postos que havia, em cada aldeia, ou diretamente aos produtores.

Um dia chega á Azóia e, no largo onde existem uns restaurantes, qual não é o espanto, lá estava o Pinóquio, deitado ao sol. Como o conhecia e estranhando ver o bicho tão longe dos locais habituais, chamou-o pelo nome. Deu um salto, todo contente, como quem “diz”: “Este gajo conhece-me”.

Meteu-o na camioneta e trouxe a “vedeta” de volta a Sintra.

Não sei como acabou, mas diabético deve ter sido.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Não sou mais que tu

HENRIQUE RODIL


Não sou mais que tu

Nem mesmo mais que tudo

Sou mais que nada

Sim, sou algo, sou alma.


Sei algumas coisas.

Pois aprendi em vidas...

Passadas claro,

Estavam a espera de algo?


Mas tudo é do desgraçado.

Nem ele sabe que faz de parvo

Nem o louco compreenderia, mesmo com um pouco de alegria,

Onde anda a Humanidade?


Ah! Pensavam que eu sabia?

Que a Palavra era sábia?

Esqueçam tudo o que somos

Pois Tudo é pecado!


Tudo eu fui e nada sou

Mas sou no meu sorriso

O grito de liberdade

Cheio de vontade

Gritando "Sou Pecador"!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Não é mero Inverno

JOÃO AFONSO AGUIAR









Não é mero Inverno
o vento que eleva
o frio que gela
e a água que tudo leva.

São sensações…
Oferecidas por vós, ó Deuses,
no refúgio onde vamos sós
em desiludidos corações.

Assim, quando oiço
a chuva a cair, paro,
e tento descobrir
onde cai ela dentro de mim.
Porque tudo nos eleva,
nos gela e nos leva,
nos Invernos que passam por nós.
Não com a firmeza dos factos naturais
mas na incerteza das belezas existenciais.

João P. Afonso Aguiar
28 de Janeiro de 2014
Praia das Maças

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Mário

FERNANDO MORAIS GOMES

“O teatro precisa de perseverança”

Rui Mário, 40 anos, encenador e ator com 23 anos dedicados ao teatro, sobretudo à sua companhia de sempre, o Tapafuros, falou-nos de si e do teatro em Sintra, passado e futuro.

O Rui Mário está há 23 anos ligado ao teatro que se faz em Sintra, e é conhecido sobretudo como encenador do grupo Tapafuros. Como surgiu o gosto pelo teatro, e o que destaca desse percurso?

Tudo começou na Escola Leal da Câmara e nas encenações que um grupo de alunos fez a partir de certa altura para as aulas de Filosofia do professor Carlos Amaral. Recordo a Apologia de Sócrates, entre eles. Mais tarde integrei o Grupo de Teatro de Letras (GTL), em 1994, e aí tive o prazer de muito aprender com Ávila Costa, meu mestre desse tempo. O grupo Tapafuros, com existência formal como associação a partir de 1994, vinha já do período das apresentações de Filosofia, em 1990, tendo como primeira peça na fase de profissionalização “O Principezinho”, em 2000.

Como vê a relação do público com o teatro hoje e nomeadamente como vê a apetência do público local pelo fenómeno teatral?

Há um afastamento notório no público suburbano, contudo, há que lutar para mostrar que há mundo para além do dormitório. O teatro tem um pendor universalista, e isso o provou o público diferenciado e vindo de Lisboa ou de concelhos limítrofes quando nos apresentámos na Quinta da Regaleira durante vários anos. Foi efetuado um estudo que demonstra que o público tipo desses espetáculos tinha formação superior e era da faixa etária entre os 18 e os 40 anos.

Que peças mais gostou de encenar e quais as que ainda gostaria de levar à cena, como encenador e como ator?

Gosto muito de Becket, Garcia Lorca, Shakespeare. Destacaria, de entre as iniciais, O Amor de D.Perlimpim com Belisa em seu jardim, mas todas são desafios, são filhos por igual. Uma peça por representar? À espera de Godot, sem dúvida, em qualquer papel. Para 2014 e enquanto Tapafuros estamos a apresentar no Estúdio 2M, em Mem Martins, VerboPessoa, com base na obra de Fernando Pessoa, e estreámos igualmente uma peça designada Cor!Ação!, para todas as idades, e gostaríamos se vier a ser possível, de apresentar as Guerras de Alecrim e Manjerona nos jardins do Palácio de Queluz.

O Tapafuros tem desde 1999 um espaço teatral em Mem Martins. Considera que esse local continua a responder às exigências atuais? Que planos têm para o dinamizar?

O nosso contrato de comodato vem de 1999, mas passados estes anos há que realizar obras estruturais, visando o conforto e a melhoria do nosso trabalho.

Que conselhos quer deixar a quem queira hoje enveredar por uma carreira no teatro?

Como formador, apostar na perseverança. O país está hoje mais apetrechado de equipamentos, mas quem vem para o teatro tem de vestir a camisola. Há que reinventar o teatro, comunicar a necessidade e a urgência de ver e vir ao teatro.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Passei o dia na serra

BÁRBARA RODHNER





Passei o dia na Serra;

Aquilo que antes me metia medo fascina-me,

Sinto a carne viva, o sangue que escorre, o sustento da vida, incrivelmente já não tenho frio, é a alma que se enrola, aninha, brilha, são as correntes do rio-riso-puro que atravessam através, entre, por dentro de.

Fundo-me; perco-me para me encontrar acertivamente. Oiço rãs, vejo sapos; piso poças, sinto lama; terra, solta, Natureza viva, morta; caminho, entro, mergulho, fundo, nunca me lembro da hora do regresso, ignoro o tempo, o prato-descalço por lavar; observo as árvores; dançam! A bruma que esconde; portas, janelas, cantos, montes! Atravesso um riacho de olhos fechados, estendo as mãos aos céus, encolho e estico o peito, observo; ouroboros, movimento circular; octogonal, central, nasal, funcional! Sinto o Tudo e integro o Nada; depois choro... Choro muito, choro tanto! O encanto, a beleza, a solidão; Por onde andei?! Onde me perdi?! Quem esqueci?!

Abraço uma Raiz. 

Martela-me um impulso, cru, deito-me. Desejo dormir uma sesta mas ao invés disso escuto, oiço, vejo; Capto o mundo como ele verdadeiramente É, tão maior que eu e os meus pequenos pés, tão maior que o vizinho e o seu carro encarnado, tão maior que o amigo e o seu stress diminutivo. A terra gira, movo-me com ela, n'Ela, por Ela; as pedras, as rochas, as árvores, (outra vez as árvores!) permanecem "de pé", cantam, sem medo, as torturas da sua alma, o que nós lhe provocamos... Ainda assim libertam, gentilmente, oxigénio puro para nós vivermos; alimentam-nos, sem vingança, os sonhos que nos provocam e movem! Estabilidade debaixo da sola das botas; mantenho-me, firme-fico. Choro mais um pouco e tanto é mesmo tanto; Cada vez mais...

Resumo, seguro; agora que VI não posso esquecer;  não estou preparada para morrer; vou ficar aqui uns largos anos, ponto. Com família, inteira, coesa, unida; concreta-amiga; por eles, por nós; Pendentes no mesmo ponto; o Centro.

Deus no Vento.

Mãe na Terra.

A Nossa Serra...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Mais um amanhecer

HENRIQUE RODIL













Mais um amanhecer,

Mais uma madrugada,

Mais uma manhã parada

Á espera do entardecer.

Mais uma palavra

Que é trocada por uma lágrima

Mais uma gota de sal

Brotava dos teus olhos.

Não de tristeza

Mas de paciência,

De uma espera que nunca termina

Enquanto se espera o ultimo respirar do dia.

Henrique Rodil,

01-04-2013

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Entrevista com Miguel Real

FERNANDO MORAIS GOMES
 
O Miguel Real é um escritor por muitos laços ligado a Sintra. Acha que há um sentido trágico dominante em Sintra ou serão apenas exacerbações românticas derivadas dos mitos que a ela se associam, hoje em retorno acentuado? 

Não, não existe sentido trágico ligado a Sintra. Muito pelo contrário. Sintra evoca um espírito poético, como João Rodil o prova em Sintra. Serra, Luas e Literatura (1995), identificando-se com o corpo literário criado pelos poetas e escritores que por aqui passaram. Um espírito poético que apenas pode ser comungado poeticamente. O corpo de que esta alma é unidade é, indubitavelmente, a minerabilidade esmagante da serra: a Serra enche, deleita e rejubila a nossos olhos, sacia os nossos sentidos, e sempre que atingimos o cume da Serra de novo nos confrontamos com dois gigantes cósmicos: o azul do mar e o azul do céu, ambos cruzados num indefinível recorde. Face a esta tripla paradoxal maravilha, constatamos que só pode ser comungada pelo coração do sintrense através de uma forma que a sublime, uma alma que a transfigure esteticamente, um espírito que lhe corresponda em grandeza e excelência - e esse é o espírito poético.
 

Costuma dizer-se que depois de Sartre a pós modernidade colocou os intelectuais numa posição descentrada. O que é ser intelectual hoje? Se o intelectual nasceu com a Cidade, hoje, com a globalização terá virado funcionário? O intelectual é um "escriba obscuro" como escreveu Foucault?
 

Peço desculpa, mas não. O intelectual, como Saramago, Lobo Antunes, Boaventura de Sousa Santos, Manuel Maria Carrilho. Gonçalo M. Tavares, Viriato Soromenho-Marques..., continua empenhado em transformar o mundo. Porém, não o faz já usando uma voz política, como até à primeira metade do século XX, mas uma voz estritamente cultural. A política perdeu o fulgor de transformador do mundo, existe apenas como regedor da existência. A cultura e a ciência, diferentemente do passado, penetram hoje nos costumes da população, exprimindo os desejos de mudança e o horizonte da transformação social. O político rege, o intelectual, pela sua obra, anuncia o novo mundo. O político rege, o cientista transforma directamente o mundo, impondo novos objectos que modelam uma nova existência social, e o intelectual abre todos os dias novos horizontes ao pensamento.

Qual a sua obra mais conseguida? Já se zangou por ter escrito alguma delas?
 

No campo do ensaio, Introdução à Cultura Portuguesa, sem dúvida, já com tradução para castelhano na editora Planeta e com lançamento na Feira do Livro de Bogotá, a segunda mais importante da América Latina. Também me orgulho bastante da série "Nova Teoria", que publico na D. Quixote. No campo do romance, tenho três romances felizes: Memórias de Branca Dias, já em 4ª edição; A Voz da Terra, sobre o terramoto de 1755, também em 4ª edição, e O Feitiço da Índia, já em 2ª edição. Sim, recuso-me a reeditar um romance há muito tempo esgotado: A Ministra. Foi escrito com raiva e hoje não gosto nada dele.

Pode dizer-se que o escritor escreve sempre o mesmo livro e toda a obra é autobiográfica?
 

Sim, há traços idiossincráticos identificadores do autor em toda a sua obra: o privilégio atribuído à personalidade de certas personagens recorrentes; o privilégio a certas construções frásicas, a certas palavras, um estilo invariável, uma descrição semelhante do tempo atmosférico, do ambiente natural, dos conflitos sociais... Por isso, Saramago dizia justamente que todo o romance era em parte autobiográfico, não no sentido de reflectir directamente a personalidade do autor ou no sentido de narrar a sua vida, mas no sentido de espelhar as grandes preocupações existenciais do autor. Desde Aparição (1959) a até à sua morte, a escrita de Vergílio Ferreira é sempre tocada pela amplidão metafísica, e toda a obra de José Cardoso Pires é sempre realista. É neste sentido - e só neste - que se pode dizer que o autor está sempre a escrever o mesmo livro.

O que anda a escrever, e que projectos tem para o futuro imediato?
 

Penso que os quatro livros que sairão em 2014 confirmam alguma maturidade de escrita, conseguida por uma intensa experiência estética desde há 10 anos: três ensaios (Nova Teoria do Sebastianismo, na D. Quixote; O Futuro da Religião, na Nova Vega, e Manifesto em Defesa de uma Morte Livre, na Relógio d'Água). No final do ano, sairá um romance sobre uma utopia (2384) como homenagem a Thomas More, criador deste termo há quinhentos anos (1516).

Como vê a cena cultural em Sintra e o que poderá ser feito para a dinamizar?
 

Com a regência do PSD, a cena cultural sintrense diminuiu fortemente se tivermos em conta os tempos áureos de Edite Estrela. Foram extintos os grandes congressos sobre Romantismo, Identidade Nacional, Eça de Queirós..., desapareceram imensas iniciativas, como os "Dias da Lusofonia" (salvo erro assim era designado), que tinham colocado Sintra no mapa cultural do país. A revista erudita Vária Escrita, que era o cartão de apresentação de Sintra para o mundo universitário, também desapareceu. Ficou a Regaleira e o esoterismo, o Olga Cadaval e as grandes produções que passam, distraem mas pouco formam. O turismo na serra profissionalizou-se no tempo do PSD, e pouco mais para além do clássico: o teatro e a CT de Sintra, o Festival de Sintra. Muito, muito mais poderá ser feito. Tenho esperança, sinceramente nesta nova vereação, sobretudo na longa experiência autárquica de Rui Pereira, o vereador que esteve na base do lançamento de quase todos os grupos de teatro em Sintra.

O que pensa que procura o leitor quando busca uma obra literária? O leitor é generoso ou é um ser distante e que tem de ser conquistado?

O leitor nunca é estúpido e move-se entre o apelo a uma literatura séria, que o force a pensar e a criticar as certezas instituídas pela sociedade, e o apelo a uma literatura de distracção que o liberte e o evada de uma vida diária difícil. Um bom romancista, como Saramago ou Eça de Queirós, sabe conciliar os dois pólos estéticos. Temos hoje dois óptimos exemplos em Sintra com a escrita de Sérgio Luís de Carvalho no romance histórico e de Ricardo Adolfo no retrato de uma nova mentalidade emergente da linha de Sintra.