segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
Sobre o debate de 19 de Setembro
TEATROMOSCA
Na
ressaca do debate que teve lugar na Casa de Teatro de Sintra,
que pontos essenciais podemos anotar sobre os projetos e as propostas
das candidaturas à Câmara Municipal de Sintra para a área da cultura?
Estiveram representadas 5 das 10 que se apresentarão a votos no dia 29 de setembro… Podíamos começar por mencionar este facto que revela tanto sobre o modo como os nossos pretendentes a autarcas olham para a Cultura. Mas ficaram muitas ideias pouco estruturadas e propostas pouco realistas que não chegam para que possamos considerar que as candidaturas têm um programa para o sector.
Todos os candidatos estão de acordo quanto à necessidade de descentralizar equipamentos e iniciativas por todo o território do concelho. Mas nenhum foi para lá da proposta do betão armado. Das ideias feitas aos clichés, voltámos a ouvir a velha tirada: “Há por aí tantas sociedades recreativas com palcos e tudo”. Ah! Que saudades destas ideias progressivas!
Falaram-se de vários “espaços sociais de afirmação cultural” – que, já há 20 anos, o sociólogo José Madureira Pinto diferenciava, tendo em conta o seu grau de institucionalização e reconhecimento de legitimidade cultural, por espaços da “chamada cultura erudita”; espaços das indústrias culturais; espaços das “subculturas dominadas e emergentes”; espaços coletivos, públicos ou reservados; e espaços domésticos - sem que os candidatos, ou outros representantes de cada uma das candidaturas, tivessem sido capazes de apresentar projetos reais (e realistas) para cada um deles. Ficámos todos muito centrados nos dois primeiros “cenários”, tecendo comentários, mais ou menos inflamados, sobre a necessidade de acabar com as disparidades existentes no concelho de Sintra. Todas as candidaturas falavam, ou acenavam com a cabeça em sinal de concordância, sobre a necessidade de entregar a programação de alguns dos equipamentos culturais do concelho a entidades privadas. E lá vinham uns acenos de cabeça. Uns para a fotografia. Outros mais convictos. Mas, afinal, entregar a tarefa da programação a quem? Como? Que espaços? Passaria isso pela criação de consórcios que integrassem técnicos da CMS e agentes culturais sintrenses, tendo em vista a dinamização de equipamentos como o Auditório Municipal António Silva, o Centro Cultural Olga Cadaval ou a Casa da Cultura de Mira Sintra? Passaria pelo convite a um ou dois criadores/ diretores para assumirem o cargo de programadores culturais destes espaços? E que modelos de financiamento desses projeto? Que vetores programáticos seriam traçados para esses equipamentos? Nada se concretizou… Ficámos a perceber que os candidatos assinalam os mesmos problemas que nós, mas que têm menos ideias para os solucionar. E, melhor, ficamos a perceber que, mesmo aqueles (partidos) que têm responsabilidades no estado em que as coisas estão, são críticos em relação a tudo isto! Mas o que fizeram eles entretanto? Será mesmo possível acreditar em alguma promessa?
E os financiamentos… para que servem os financiamento? E como devem ser geridas as candidaturas à atribuição de subsídios? E que apoios para as novas estruturas e para os novos criadores? Que critérios para a atribuição de verbas? E propostas para um melhor acompanhamento (não falamos só de “vigilância”) dos projetos? Nada!
E será que alguma das candidaturas (das que estiveram presentes, claro!) foi capaz de surpreender os presentes com projetos inovadores? Alguma coisa? Ah, bom… Em algumas cabeças, lá deve ter voltado a soar o alarme do betão: “Vamos recuperar a Quinta da Ribafria e convertê-la numa Casa das Artes”; ou “Há duas antigas fábricas em Sintra que podem ser aproveitas: a Fábrica da Messa e a Fábrica da Melka”; “Precisamos de mais equipamentos espalhados por todo o concelho, que não só no centro histórico”. Claro que sim. Mas isto ainda é apenas navegar à vista, meus senhores! Então e depois? Com esses espaços recuperados, reinventados, o que fazer com eles? O mesmo que fizeram com o Centro Cultural Olga Cadaval? Entregá-lo a uma empresa municipal para acabar desligado do território em que se insere, sem qualquer ideia de programação, sem futuro? Ou fazer o mesmo que fizeram ao Auditório Municipal António Silva? Deixá-lo moribundo, sem programação alguma, abandonado, interdito o acesso a companhias de teatro, música ou dança do concelho por causa de regulamentos desfasados da realidade cultural do concelho de Sintra? Auditórios pagos com os impostos de todos, para usufruto de poucos ou nenhuns? É isso que se quer para estas novas infraestruturas que pretendem criar?
É claro que seria bom que esses espaços e outros fossem recuperados. É demasiado grave o abandono e a ruína que tomou conta de muitos equipamentos municipais. No entanto, precisamos de perceber que não vamos cair nos mesmos erros do passado e voltar a sonhar com 300 auditórios e cineteatros, para depois percebermos, tarde demais, que precisamos de os habitar e de lhes dar vida, porque, se as pedras do Castelo dos Mouros parecem valer por si (será?), por nos contarem histórias de um tempo em que serviam para afastar intrusos, os auditórios e os cineteatros nos nossos tempos devem ser feitos para nos convidar a invadi-los.
Estiveram representadas 5 das 10 que se apresentarão a votos no dia 29 de setembro… Podíamos começar por mencionar este facto que revela tanto sobre o modo como os nossos pretendentes a autarcas olham para a Cultura. Mas ficaram muitas ideias pouco estruturadas e propostas pouco realistas que não chegam para que possamos considerar que as candidaturas têm um programa para o sector.
Todos os candidatos estão de acordo quanto à necessidade de descentralizar equipamentos e iniciativas por todo o território do concelho. Mas nenhum foi para lá da proposta do betão armado. Das ideias feitas aos clichés, voltámos a ouvir a velha tirada: “Há por aí tantas sociedades recreativas com palcos e tudo”. Ah! Que saudades destas ideias progressivas!
Falaram-se de vários “espaços sociais de afirmação cultural” – que, já há 20 anos, o sociólogo José Madureira Pinto diferenciava, tendo em conta o seu grau de institucionalização e reconhecimento de legitimidade cultural, por espaços da “chamada cultura erudita”; espaços das indústrias culturais; espaços das “subculturas dominadas e emergentes”; espaços coletivos, públicos ou reservados; e espaços domésticos - sem que os candidatos, ou outros representantes de cada uma das candidaturas, tivessem sido capazes de apresentar projetos reais (e realistas) para cada um deles. Ficámos todos muito centrados nos dois primeiros “cenários”, tecendo comentários, mais ou menos inflamados, sobre a necessidade de acabar com as disparidades existentes no concelho de Sintra. Todas as candidaturas falavam, ou acenavam com a cabeça em sinal de concordância, sobre a necessidade de entregar a programação de alguns dos equipamentos culturais do concelho a entidades privadas. E lá vinham uns acenos de cabeça. Uns para a fotografia. Outros mais convictos. Mas, afinal, entregar a tarefa da programação a quem? Como? Que espaços? Passaria isso pela criação de consórcios que integrassem técnicos da CMS e agentes culturais sintrenses, tendo em vista a dinamização de equipamentos como o Auditório Municipal António Silva, o Centro Cultural Olga Cadaval ou a Casa da Cultura de Mira Sintra? Passaria pelo convite a um ou dois criadores/ diretores para assumirem o cargo de programadores culturais destes espaços? E que modelos de financiamento desses projeto? Que vetores programáticos seriam traçados para esses equipamentos? Nada se concretizou… Ficámos a perceber que os candidatos assinalam os mesmos problemas que nós, mas que têm menos ideias para os solucionar. E, melhor, ficamos a perceber que, mesmo aqueles (partidos) que têm responsabilidades no estado em que as coisas estão, são críticos em relação a tudo isto! Mas o que fizeram eles entretanto? Será mesmo possível acreditar em alguma promessa?
E os financiamentos… para que servem os financiamento? E como devem ser geridas as candidaturas à atribuição de subsídios? E que apoios para as novas estruturas e para os novos criadores? Que critérios para a atribuição de verbas? E propostas para um melhor acompanhamento (não falamos só de “vigilância”) dos projetos? Nada!
E será que alguma das candidaturas (das que estiveram presentes, claro!) foi capaz de surpreender os presentes com projetos inovadores? Alguma coisa? Ah, bom… Em algumas cabeças, lá deve ter voltado a soar o alarme do betão: “Vamos recuperar a Quinta da Ribafria e convertê-la numa Casa das Artes”; ou “Há duas antigas fábricas em Sintra que podem ser aproveitas: a Fábrica da Messa e a Fábrica da Melka”; “Precisamos de mais equipamentos espalhados por todo o concelho, que não só no centro histórico”. Claro que sim. Mas isto ainda é apenas navegar à vista, meus senhores! Então e depois? Com esses espaços recuperados, reinventados, o que fazer com eles? O mesmo que fizeram com o Centro Cultural Olga Cadaval? Entregá-lo a uma empresa municipal para acabar desligado do território em que se insere, sem qualquer ideia de programação, sem futuro? Ou fazer o mesmo que fizeram ao Auditório Municipal António Silva? Deixá-lo moribundo, sem programação alguma, abandonado, interdito o acesso a companhias de teatro, música ou dança do concelho por causa de regulamentos desfasados da realidade cultural do concelho de Sintra? Auditórios pagos com os impostos de todos, para usufruto de poucos ou nenhuns? É isso que se quer para estas novas infraestruturas que pretendem criar?
É claro que seria bom que esses espaços e outros fossem recuperados. É demasiado grave o abandono e a ruína que tomou conta de muitos equipamentos municipais. No entanto, precisamos de perceber que não vamos cair nos mesmos erros do passado e voltar a sonhar com 300 auditórios e cineteatros, para depois percebermos, tarde demais, que precisamos de os habitar e de lhes dar vida, porque, se as pedras do Castelo dos Mouros parecem valer por si (será?), por nos contarem histórias de um tempo em que serviam para afastar intrusos, os auditórios e os cineteatros nos nossos tempos devem ser feitos para nos convidar a invadi-los.
sábado, 21 de setembro de 2013
Uma tarde de Verão
JOÃO AFONSO AGUIAR
Esta
brisa que me faz sentir
a
leveza dos momentos
novos
e por descobrir.
Neste
espaço imenso
entre
a terra e o mar,
neste
tempo de estio,
entre
o calor e o refrescar,
quando
toco o meu corpo no
sal
do mar,
vejo-te
passar,
simples
e bela
e
todo esse momento desperta
uma
nostalgia singela,
de
imaginar que te conheço
e
que o tempo nos dará
mais
que esta divagação incerta.
Agosto, 2013
João P. Afonso
Aguiar
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Acerto de Contas
ANTÓNIO LUÍS LOPES
Há uma determinada elite nacional
que nunca se resignou às profundas mudanças que o 25 de Abril introduziu no
nosso País. Calaram, camuflaram, disfarçaram - mas bem no seu íntimo jamais
aceitaram.
Não aceitaram que as classes mais
pobres se transformassem em classes médias. Não aceitaram que essas mesmas
classes médias enviassem os seus filhos para as Universidades. Não aceitaram
que gozassem férias, comprassem carros, viajassem para o exterior, adquirissem
casa própria. Não aceitaram que aquilo que estava restrito a uma minoria se
vulgarizasse.
Ao longo de anos assistiram a
tudo isso com um esgar mal disfarçado de real incómodo - e já que a situação
era inevitável, trataram de poder explorá-la, na medida do possível. Abriram a
torneira do crédito. Deixaram que aqueles que nunca tinham tido nada gozassem o
prazer de se acharem donos de alguma coisa, quando realmente nem das suas vidas
eram. Ganharam rios de dinheiro na construção civil, no turismo, no ensino
privado. Transformaram salários fixos em remunerações variáveis, como promoção
do "mérito" e do "esforço". Como o dinheiro não
tem classe nem cor estenderam a mão para o receber, em juros e pagamentos, da
mesma classe média a quem, lá no fundo, sempre desprezaram olimpicamente.
Até que o momento surgiu com o
rebentar da "bolha especulativa".
A "crise" (apesar de
incómoda numa fase inicial) cedo se transformou na ocasião de ouro para
apresentar a "fatura" a
quem julgava que a vida decorreria com normalidade. Em "crise" as regras caem, os acordos
cessam, os contratos caducam - afinal...é a "crise". Banqueiros, grandes especuladores, grandes
empresários, organizações mundiais como o FMI e quejandos, Governos de Direita,
partidos de Direita ansiando ganhar eleições - de todos os lados se percebeu
que a ocasião era "agora". Caído o Muro de Berlim o Mundo deixara de
ter um real contraponto ao neo-liberalismo feroz. As ideologias foram sendo
gradualmente vendidas como "ultrapassadas"
e coisa de velhos ou de fanáticos. A maçã estava madura para reverter séculos
de evolução nos direitos, nas regalias, nas regras relativas ao Trabalho e aos
trabalhadores. Quem poderia agora opor-se se a "Crise" estava aí e o Medo era arma letal? Quem poderia impedir
que se rasgassem acordos de trabalho? Quem se atreveria a reivindicar direitos
num Mundo onde a fome e a miséria rondassem?... Nivelar por baixo - palavra de
ordem.
Os “donos de Portugal”, no seu íntimo, sempre acharam que se estava a
"ir longe demais" num Mundo
em que ricos e remediados se podiam cruzar nas mesmas lojas ou viver no mesmo
bairro. A "ordem natural" das coisas estava, desde há muito, a ser
colocada em causa. Em vez de trabalho bem pago - caridade bem gerida. Em vez de
dignidade, direitos e respeito pelo desempenho - precariedade, fragilidade de
laços, flexibilidade total. Em suma: dependência total do "dono".
Há uma contra-revolução a vapor
por toda a Europa, de uma dimensão inaudita. E, por cá, há quem ande a acertar
contas com a descolonização, com a instauração da Democracia, com a livre
expressão, com a contratação coletiva, com os direitos no Trabalho, etc. Não
sei se tudo isto se resolve com cânticos ou com cravos - mas sei que, caso não
se resolva, será o fim de uma era de paz, prosperidade e desenvolvimento em
todo um Continente.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
No tempo em que ia às castanhas com o meu pai à Boiça!
JOSÉ CARLOS SERRANO
Desde pequeno que me habituei a
ir apanhar castanhas ao Parque da Liberdade. Era fácil. Podia ir sozinho, mas
tinha de ir cedo. Os jardineiros variam os caminhos cedo. O parque tinha muitos
castanheiros. Era boa apanha se chovesse ou fizesse vento.
Quando o meu pai podia, íamos, na
sua Vespa, à Serra, à Fonte dos Amores. Quem é de Sintra já lá foi, uma vez
pelo menos. O caminho é pela estrada como se fossem para Seteais, quando chegam
ao Largo, frente à Quinta do Relógio (que fica frente à entrada da Quinta da Regaleira),
descem, entre muros, na primeira entrada de um caminho de saibro, à esquerda. Esse
é o caminho que vai prá Fonte dos Amores, prá Boiça, prá Saibreira, onde era o
campo em que a malta dos Seteais jogava á bola e quem sabia que o campo lá
existia.
São coisas que não esquecem! Momentos
de liberdade! Estar no meio da Serra a desfrutar do que a natureza nos pode dar.
Poder apanhar castanhas nos caminhos, das grandes, ou medronhos e abrunhos, com
que o meu pai fazia licor, ou trazer um garrafão de água, da Fonte dos Amores,
fresquinha.
Às vezes o meu pai aproveitava
para comprar um garrafão de vinho, quando vínhamos das castanhas, na Quinta do Relógio.
O caseiro vendia vinho. São coisas que me dão vontade de rir. Era puto! Lembro-me
que o sitio onde estava o vinho era por detrás da casa principal e o barril não
tinha torneira, ele chupava por um tubo para retirar o “néctar”, como se faz
quando se quer tirar gasolina, só que naquele caso até dava para beber uma
pinga. Não me consigo lembrar do nome dele, era forte, com umas grandes rosetas
na cara, muito castiço e simpático.
Enfim, coisas de infância …
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Fui ali a Roma e voltei
BÁRBARA JORDÃO RODHNER
Fui ali a Roma e voltei.
Levava no bolso um papel amarfanhado tal qual emigrante desdentado.
Peguei
nos ténis e num mapa e caminhei. Não vi metros, nem bicicletas, vi
scootters com fartura e taxistas civilizados e simpáticos ( bizarro
...) Desmanchei a ilusão que trouxera dos filmes americanos onde se
retratam os italianos como famílias numerosas aos gritos e aos
encontrões num desenrolar de massa colorida; antes; comi salada e
compreendi que Família numerosa conheço eu dentro das 4 paredes da minha
própria casa.
Em Roma reina o silencio, os
solteiros bem vestidos, as mulheres muito giras e nada que se apresente
como um possível e eventual "filho".
Fui à
fonte das moeditas ( fonte di trevi ) para pedir um desejo mas fugi
rapidamente com a vontade sincera e inabalável de não voltar ali. Eram
pessoas e mais pessoas a banharem-se que nem umas loucas com jeans
velhos e t-shirts usadas sem glamour; absolutamente nenhum, debaixo de
uns reais e concretos 40 graus que queimavam qualquer sonho ou objecto
de ilusão. Eram turistas e mais turistas a treparem costas acima, braços
abaixo pelas pernas e pelas cinturas à procura de uma fotografia
pseudo-perfeita de estátuas de homens musculosos brancos e nus a
espirrar uma Arte que já se foi. Eu; comprei um postal por cinquenta
cêntimos numa "barraca" vazia mais à frente e dei-me por .:
verdadeiramente feliz*
Já desiludida com a
cidade de sonho onde se filmou o famoso "Roman holiday" e o mais recente
"From Rome with Love" caminhei semi-triste rumo ao lado oposto de tudo o
que tinha escrito no dito papelito amarelado e amarfanhado e foi então
que encontrei a "luz"; tal qual papa franciscano; uma livraria à moda
absolutamente antiga. Daquelas que cheira realmente a livros colados com
cola branca. Entrei e sentei-me num suspiro profundo de entrega a um
banco branco almofadado e com a forma real e enformada de um rabo;
usado; portanto . Folheei quilogramas de bichos amigos, uns de cada
dura, outros lindamente ilustrados, todos eles traduzidos na língua bela
e cantante que é, de facto, o italiano. Não fui incomodada nenhuma vez
por uma pressa irritante e suplicante de uma eventual e possível venda,
Antes, fui acolhida. Não fui assediada, nem empurrada; antes; encontrei
espaço no Espaço para me Transpor e repor em cenários de magia,
mergulhei fundo nas fontes imaginarias do meu ser e jamais fui
interrompida; prometi-me assim proteger-me.:
Jamais voltar a visitar sítios cuja a expectativa é demasiado elevada.
Jamais
ouvir opiniões alheias sobre esses mesmo sítios onde essas mesmas
pessoas com opiniões ( não desfazendo ) foram tão felizes e assim, sem
mais nem menos, entendi que trazia no peito uma enorme angustia, essa
sim, tão real. Saudades imensas da minha casa, não só das paredes
"endiabradas" mas das árvores envolventes, da magia mágica, do
misticismo místico, do fantástico inocente e ao mesmo tempo perverso que
é a minha pequena e grande cidade, vila aldeia ilha de Sintra , minha
mãe, meu útero, minha caverna gruta aveludada com musgo e humidade .
Amo-te terra Permeável e inalterada que Permanece para sempre assombrada
pelas bruxas com fama justa de mal fadadas, que desabrocha em vida a
cada segundo debaixo dos meus pés. Hei-de morrer cheia de reumático e
artrites, é certo mas a sorrir um sorriso desdenhosamente quente com
aquilo que te sei; sobre.
Roma é lindo sim,
sobretudo fora dos mapas traçados onde existem italianos a viver a
Itália, de verdade "" mas Sintra é e sempre será a minha Sintra* serra
preferida e favorita .
Coisas... de menina.
Portanto .
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O Guardião do Éden
FERNANDO MORAIS GOMES
A
Câmara Municipal de Sintra aprovou por
unanimidade, no passado dia 9 de Setembro, em reunião privada de câmara,
a proposta para a atribuição da “denominação de “Rua Carlos de Oliveira Carvalho (Carvalho da Pena) para o troço da
EN 375, com início no Caminho da Rede e fim na Av. 25 de Abril, na localidade
da Ribeira de Sintra. Antes tarde que nunca se homenageia o dedicado regente florestal e guardião da Pena durante mais de 30 anos.
O cavalo internava-se na mata
provocando um restolhar na terra húmida e fértil, à sombra dos penhascos do
Éden verdejante. O cheiro inebriante da floresta entorpecia os sentidos, sem
pressa, o cavaleiro absorvia-o, bálsamo da alma e revigorante do corpo.
Carlos Carvalho, regente florestal de
Sintra, observava as suas plantas e árvores, sentinela do génesis,
jardineiro da Vida, cavalgando pela vasta propriedade, enquanto no lago, um
pato deslizava pela água fresca qual príncipe esperando o desfazer do encanto.
Muitos anos tinham passado desde que pela primeira vez ali chegara, as
araucárias eram agora vetustas e portentosas, regadas por muitas chuvas e
invernos, e sempre miraculosamente despertas do letárgico sono a cada primavera
redentora. No Éden de Carvalho, “o Carvalho da Pena” como agradecidos patrícios
o tratavam, a flora atingia o clímax fecundo. Havia criptomérias do Japão,
fetos da Nova Zelândia, cedros do Líbano, araucárias do Brasil, até tuias da
América, a preciosa herança do velho rei D. Fernando. Carvalho recebeu o
legado, e tratou-o como seu, pai extremoso, enfermeiro atempado, vigilante do
paraíso, antes jovem jardim de rosas e camélias e agora garbosa floresta de
vetustos carvalhos, como ele, o Carvalho, incontornável, rosto tímido atrás do
vasto bigode, sem pressa e introspectivo. Sentia a ampulheta do tempo a
esgotar-se e cada passeio era agora uma despedida. Sabia a idade de cada uma
das suas protegidas, que lhe retribuíam, agradecidas, com cores para todas as estações,
em anual milagre de ressurgimento no esplendor da clorofila. Cada abate que
fortuito se impusesse, era uma punhalada assassina, fazia-o pedindo perdão,
breve outra planta ocuparia esse lugar.
Cavalgava e lembrava a velha
condessa, e como já perto da morte lhe jurara cuidar do Éden. Logo se lhe
juntaria, o eucaliptus obliqua, lacre do amor dela e de D. Fernando,
plantado no dia do casamento, crescia garboso e diariamente com ele falava como
se fosse a primeira vez.
Naquela manhã visitá-lo-ia o neto da
condessa, Azevedo Gomes, como ele, hortelão de milagres, sempre zelando para
que o verde manto protector não sucumbisse às labaredas do inferno que por vezes
rondava o Jardim. Azevedo Gomes aliara os conhecimentos silvícolas à aturada
experiência de Carvalho, estudando a serra para um futuro livro. Lentamente,
fazia a monografia do parque, o conhecimento lido e o sabido em frutífera
união. Encontraram-se na Fonte dos Passarinhos ao fim da manhã, sob um sol
outonal. Era um momento muitas vezes repetido, a romagem aos canteiros e
condutas de água, conselhos sobre cortes e podas, ideias para repor plantas
endémicas e repelir as infestantes. O dinheiro não abundava, e Carvalho, com
poucos e generosos jardineiros, cuidava como seu um património que os responsáveis
não acarinhavam.
-Sabe, senhor engenheiro -lamentou, enquanto caminhavam a pé –sinto
que estou a ficar sem forças. Não sei o que vai ser disto depois. O Ministério…
Antes que concluísse, Azevedo Gomes,
agarrou-lhe o braço, interrompendo-o:
-Ora, ora, amigo Carvalho, vão as
araucárias crescer mais três metros e ainda você aí estará para as curvas.
Quando a semente é boa, a árvore sai rija!
O Carvalho da Pena fixou os olhos
mortiços no eucaliptus obliqua e suspirou, com ar cansado:
-Quando a minha hora chegar, gostava
que fosse assim, de pé! -e abriu os braços, como querendo abraçar o portentoso tronco, e com ele,
toda uma vida a trote, à chuva e ao sol, pelas ravinas bordejadas de fetos,
orientando os guardas e zelando pelo “seu” parque. Azevedo Gomes pôs-lhe a mão
no ombro, e em silêncio seguiram por um caminho de pedra. Uma pequena
araucária, tombada, com vinte centímetros apenas, ameaçava morrer, as mãos
milagrosas do velho jardineiro logo a acondicionaram com terra, um regador
oportuno renovou de água aquela promessa de vida.
-Carvalho, creia-me, se esperamos
o que não vemos, será com perseverança que o esperaremos. Este não é só o
Parque da Pena. É o Parque do Carvalho da Pena!
Carvalho sorriu, pensativo, ao fim da
manhã despediram-se. Não mais tornariam a ver-se. Carlos de Oliveira Carvalho,
administrador florestal do Parque da Pena desde 1911, morreu pouco depois, em
1940.A pequena araucária, essa, mede já trinta metros, viva pela mão do
Carvalho. Da Pena.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Um Grito
EURICO LEOTE
No dobrar de uma esquina, no alcançar de um céu azul, no
mergulhar nas tuas lágrimas, forjo o meu caminho e construo o meu ser.
Desconstruo as incertezas, derrubo as contradições, navego no teu silêncio e
obtenho uma satisfação interior, plena de sentido, aberta aos sentidos. Divago
no tempo, corro sobre as águas passadas, regresso às origens, escuto os sonhos,
dou asas ao pensamento e refugio-me nas sombras. Desço aos confins, solto um
grito de esperança, abafo os soluços mornos aquecidos nos teus seios e lanço-me
no espaço das ilusões, do tudo e do nada, do desejo e da esperança, no incerto
tido por certo. Aqui acordo, olho mas não vejo, sombras toldam o meu
pensamento, nuvens perpassam nos meus olhos, sinto o bafo da besta, corro à
deriva, lanço-me na confusão, reacendo as chamas, queimo as esperanças e
exausto adormeço de novo olhando para o infinito das inverdades. É tão bom
existir mas não estar, é tão bom fechar os ouvidos às promessas incumpridas,
ignorar os papagaios bem falantes engalanados nas suas penas multicolores,
naquelas fachadas fechadas aos gritos de justiça e de luz, de igualdade e de
fraternidade. À mundo cão onde me debato digo e contradigo, faço e nego que
faço, onde arroto ar que se ergue perdendo-se nos céus do tempo gasto e velho,
onde multidões se arrastam errantes alheias ao piar alegre de uma ave, ao som
vibrante e cadenciado das ondas enrolando na areia, ao vento cantando nos
canaviais, ao bom dia de quem passa, mais um ser errante mas ainda com
esperança, que caminha com passos certos para um futuro incerto. Certezas
leva-as o vento num rápido golpe da sua asa, no seu bico adunco desafiando as
fragas e arribas, soltando gritos de desafio aos que restam, aos que ainda
teimam, aos que ainda se arrastam tentando provar e mostrar que são gente, de
carne e osso, com membros e cérebro, de coração negro e obscuro, obscurecido
pelas aves de rapina que tudo pilham, de forma pensada e calculada, que ignoram
apelos e lágrimas já secas de tanto chorar, braços tombados de tão erguidos que
por gerações marcharam indicando os caminhos da luta e da revolta, rumo à luz e
à paz, à partilha e à construção. Fomos mental e psicologicamente
desconstruídos. Sentimo-nos desfeitos e feitos pó. Sopramos, é tudo o que nos
resta, pois já perdemos a voz.
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